Os teus pés percorrem
milhas e milhas e milhas
dentro de mim.
Os teus olhos bonitos,
serenos, singelos, completos
dizem que sim.
Os teus sonhos
tão longe ao vento
refletem o fim.
Viagens loucas
Insanas
Pelo universo incauto
Da pele robusta e rochosa
Que mina suor feito água!
Tão doce e viril
Tão potente
Seus lábios me beijam
Ardentes.
Seu peito me esconde
Inteira
Seus olhos percorrem minha face
Sua língua a arrodeia!
Amo com a ardência
De um coração desejoso
Amo com a prudência
De um espírito amoroso
Amo com a vida
De um toque doce de amor
Amo sem vergonha
De repetir a palavra amor!
Já senti tanta raiva e ódio
E para quê me serviram?
Já senti tanta falta e repulsa
E para quê me serviram?
Já senti tanto medo e remorso
E para quê me serviram?
Já senti tanto nojo e carência
E para quê me serviram?
Para nada
Nada
Nada!
A última gota
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto vivo?
Eu estou aqui ainda
Posso ser juiz
ou ser juízo!
Eu estou aqui ainda
Posso lamentar
ou saltar o abismo.
Eu estou aqui ainda
Posso enfurecer
ou tornar-me aprisco.
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto a vida pulsa
em meu peito
em minha face
em minhas mãos?
há decisões que – ainda -
podem ser tomadas
e escolhas que prescindem dos nãos!
Retina
A gente foi ensinado
A morrer à míngua
E não sobra língua
pra gente comer…
A gente sente e chora
E não vê a trégua
Sem medir a régua
pra gente entender…
Ponte
Escorre tempo
Entre as mãos perenes
Insensatas
Rogadas
De quem nem lembra
De ti!
Escorre tempo
Sereno
Suave
Pequeno
Entre nuvens e dentes
Ranger de trovões
- Ai de mim!
Escorre tempo
Escorro eu
Em ti!
Reconheço minha ignorância
Mas não me conformarei enquanto não puder ajudá-la!
Ajudar a quem?
A mim ou a minha ignorância, talvez...
Ajudá-la a olhar outros olhos
Verdadeiros reflexos de quem sou
Ajudá-la a enxergar outras faces
Herdeiros do mal e do bem, do não e do sim...
Ajudá-la a desterrar as máscaras
A soberba
A preguiça
A vaidade
Ah, como a ignorância é vaidosa!
Ela se esconde em si mesma.
O calor dos seus lábios
Envolve-me com ternura
A sedução dos seus olhos
Eleva-me às alturas!
Seu toque começa suave
Sentindo o meu pulsar
As mãos avançam com chama
E alcançam o seu lugar!
Uma vida inteira
valida as decisões de um segundo.
Qual a vida?
Qual o segundo?
Qual a história contarei?
A história é o agora
O tempo é a ponte
E as certezas são todas inúteis
Pois teríamos que inventar a verdade
para ter certezas úteis!
Prefiro-me assim…
Sinto-me ridiculamente ingênua
- isso é bom!
Um pouco inebriante, talvez
e reconforta-me saber que estou num berço esplêndido
numa pureza de sentidos
preparada para acolher o novo e a novidade
ao mesmo tempo que tenho algo de mim.
Não sou pura nem mesmo pureza
mas reconheço-me como abençoada
pelo dom da ingenuidade!
Uma ingenuidade pulsante e bela
que sempre faz-me crer de novo
e de novo
e de novo
em algo e em alguém que mostra-se disponível para encantar-me.
Ser ingênua também torna-me confiante.
Não apenas nos outros, mas principalmente em mim…
Os que enganam (e os que querem enganar)
são os verdadeiros e ridículos tolos
Eu? Eu sou ingênua
Apenas ingênua e confiante demais
para temer os que me querem mal…
Seus dedos percorrem
A extensão do meu corpo
Seu respirar ofegante
Encontra o meu ser louco.
E desse modo incomum
Entregamos o tesouro
Você morando em mim
E eu sorvendo você todo.
O chamado
Será a qualquer momento
Como uma brisa suave
Ou como um terrível vento
Será a qualquer momento
Não perguntará as cores
Nem os meus mais sérios intentos
Será a qualquer momento
Desfazendo as teias
Ou estendendo tormentos
Será a qualquer momento
Iludindo os sentidos
Ou execrando por dentro
Será a qualquer momento
Um pior desatino
Ou o melhor dos unguentos
Será a qualquer momento
Com a data marcada
Ou com surpresa do tempo
Será a qualquer momento...
E antes que ela chegue
Eu me entrego, forte, lento...
A morte...
Será a qualquer momento!