A falta de humildade para aprender nos faz enxergar a própria arrogância no próximo, mesmo que ele tenha apenas a intenção de compartilhar para aproveitamento alheio o que já experienciou.
Vivemos a era da arrogância muito bem disfarçada sob rótulos. Qualquer opinião vira julgamento, qualquer ensinamento bem-intencionado vira "caga-regra", e tudo o que é antigo virou inaproveitável. Estariam as palavras sendo reféns da nossa falta de sabedoria coletiva?
ARREDIA
No armagedon digital
o cliché cospe na sabedoria.
Proliferam-se escritas sem alma,
métricas perfeitas sem poesia.
Frases de efeito simulando profundidade.
Moralismo decadente sob a aura de verdade.
Romantismo velhaco
retirando das mulheres seu valor
na conversa fiada do que se supõe amor.
A produção literária continua patriarcal.
Overdose de postagens cômicas
disfarçando nossa decadência cultural.
O exibicionismo corporal
fazendo das palavras escadaria.
A miserabilidade educacional de um povo
disfarçada de alegria.
A PARTIDA DA MENINAZINHA
A menina só
caminha pela cidade bela.
E a cidade
ri e zomba
da menina velha.
Os olhos tristes
da meninazinha têm vida.
Romperão ciclos sistêmicos de desamor
sobrevivendo à presença esquecida.
A perspicácia do olhar,
camuflada em azul do céu noturno,
vai furar o cerco que a aprisiona ali.
A menina não sonha
apenas cria outras realidades para existir.
Ignora príncipe encantado.
Prefere se armar com palavras para fugir.
Levará consigo uma bomba de melancolia
que, quem sabe um dia,
explodirá em poesia.
SOM E SILÊNCIO
A voz que ressoa pelo canal da tua garganta
pode ser a chave que abre a cela em que um
ou milhares estão aprisionados.
Ou o som da tua própria alforria.
A quebra da mudez torturante
que asfixia.
A força do teu silêncio
pode ser o estardalhaço da tua serenidade
sobre a ignorância ruidosa
que se vangloria.
Mas o som da tua fala pode ser também o cadeado
que tranca a boca das minorias.
A manifestação do autoritarismo
que se sobrepõe aos gritos dos desvalidos.
A mudez da tua indiferença
pode perpetuar por séculos a servidão
e a manifestação multiforme da violência.
Se por medo,
o calar da tua fala
produzirá também feridas na tua essência.
Há silêncio profundo e fala revolucionária.
Há fala excessiva e silêncio covarde.
Há escuta que salva e palavra que arde.
A voz que soa pelo canal da tua consciência
pode parar o bumbo do marchar da tirania
ou o mutismo que a sustenta.
O bom uso do som ou do silêncio
reside no exercício da tua sabedoria.
SELENITA
Para cada solidão noturna há uma lua.
A crescente
para evocar os ausentes.
A minguante
para ruminar a vida de antes.
A cheia
para comportar a ansiedade que corre nas veias.
E a nova
para lembrar de novos ciclos depois das provas.
O QUE DEVERIA TER SIDO DITO
Palavra guardada
é navalha que nos corta por dentro.
É sangue pisado.
O indigesto não transbordado.
É morte que se faz presente em vida.
É carne crua
que apodrece escondida.
O som invertido
ecoado no íntimo.
Sem ruído.
A MORTE NÃO MATA A VIDA
Ausculta com a alma
o som que vibra nestes versos:
o medo de viver é o que mata a vida,
não sendo a morte física, realmente, o seu inverso.
POESIA QUE ME ESPANTA
Do momento em que a razão não consegue comportar,
a poesia nasce.
Do esquivar das algemas da mente a espreitar.
Do olhar além do além que a sutileza capta.
Do que não se expressa pela oralidade chula e gasta.
A poesia condensa os sentidos.
Mimetiza-se na escrita de um livro
em qualquer estilo literário.
Entrega-se a um pedinte.
Não se rende a um mercenário.
Desconstrói a narrativa fática.
É música
que vibra no espectro da sonoridade.
E por ser ritmo e compasso,
também é matemática.
Torna a pequena palavra vasta.
Guerreira de um só
ou de exércitos de Ghandi,
conquista sem armas.
A poesia basta!
ANDARILHOS
Somos andarilhos no tempo
trocando de roupa a cada nova jornada.
Vestes masculinas e femininas
em predominância ou mescladas.
As cores se alternam entre branca, preta, amarela
e todas as cores da aquarela.
Levando conosco, das escolhas, as pegadas.
Evoluindo a largos passos
ou refazendo trajetos
na busca de uma nova estrada.
O tempo infindo corre conosco
e se amalgama em nós.
Paralisa quando nos detemos nos nós,
até desatarmos os apegos,
vencermos os medos,
qualificados para uma nova morada.
Há que se caminhar
com o livre-arbítrio que nos valida a vida,
podendo ser andarilhos de trilho ou de trilha.
DOMINGO
Inundação de pausa.
Incômoda calma
lembrando a mente insone
que ela tem alma.
Domingo,
em que o segundo se alarga
para suportar a segunda
que nos aguarda,
escancara, sarcasticamente,
que nosso tempo se vai,
ao pôr a vida
em modo stand by.
O CÍRCULO
O pai maltrata a filha.
O marido maltrata a esposa.
A mãe maltrata a filha.
A filha maltrata a mãe.
O filho imita o pai.
E todos maltratam a mulher
AVISO
Antes de vir me foi dito:
Não terás nada de seu
nessa passagem.
Entenderás que a vida terrena
é só uma viagem.
E tudo que te pareça
material, sedutor e intransponível
é apenas miragem.
QUANTAS VEZES JÁ MORREMOS NESTA VIDA?
Morremos e renascemos
de rupturas e desfazimentos,
em ciclos encadeados
por morte e renascimento.
Partimos por vontade própria
de histórias vividas
com validade vencida,
ou expulsos do paraíso
mesmo agarrados feito carrapicho.
Coisas, pessoas, status indispensáveis
são tirados de cena à nossa revelia,
substituídos por novos,
que serão depostos por outros,
e outros…
O eu que fomos,
se recompõe em novos prumos
mesmo arrastado contra a vontade
para outros rumos.
Assim seguimos vivendo,
no mesmo corpo,
morrendo e renascendo.
ESTOU EM OBRAS, DESCULPE O TRANSTORNO!
Meu alicerce é forte,
embora a edificação
seja vulnerável às intempéries.
Sucumbo, às vezes,
aos ataques dos que me ferem,
mas me recomponho sempre,
rebocando ocos com aprendizados
nos golpes que me desferem.
Entre, mas atento para não se ferir
com a oralidade das minhas cruas verdades,
pois meu piso ainda é rústico
e há entulhos por toda parte.
POEMINHA DA ALEGRIA
De quantos versos preciso
para compor meu poema
sobre a força revolucionária da alegria?
Apenas um: “a mim basta que você sorria.”
*Para meus filhos Isabele e Rodrigo.
META UM VERSO:
quando a realidade dura te inquietar;
quando tudo o que parecia sólido desmoronar;
quando tiver que se recompor,
remendando teus esforços chutados
por quem não soube valorizar.
Já há dentro de ti um metaverso,
uma consciência capaz de alterar
o ambiente coletivo
a partir do teu próprio universo.
Para cada dor existe uma cura.
A cada lágrima, meta um verso.
MÃES MARIANAS
Lá vai a incansável mãezinha,
carregando as dores dos seus filhinhos.
Abrigando-nos sem julgamento,
em seu amoroso ninho.
Relevando nossos tropeços em desesperos.
Embalando nossas esperanças em recomeços.
Energia da Mãe Maior
que consagra todas as formas de vida.
Transfigurando-se em muitas Marias,
Lourdes, Fátimas, Aparecidas…
O VULTO QUE VOCÊ VÊ
Uma pena que não note a profundidade do meu riso.
Como ainda trago a menina na alegria que improviso
sobre uma trajetória intensa,
em que recriei com arte
a tristeza, sob disfarces.
Lamento que não veja a beleza que tenho,
e que não é pouca.
Que não morre na extensão da minha idade.
Que rebenta nas ondas da inquietude
e nos despertares repentinos,
extrapolando o que expresso pela boca.
O que você enxerga é ilusão de ótica.
Minha imagem recriada pelos tolos
e reduzida a um vulto,
porque os meus verdadeiros versos estarão sempre ocultos.
LÍNGUA DE MULHER
Ferina
é a língua do poder que nos enclausura.
É assediadora, virulenta e dura.
Lambe o corpo
e xinga nossa aparência.
Maldiz nossa presença
e tortura nossas cabeças
até que a anima feminina feneça.
*Poema do livro "Quem tem ódio das borboletas"?
SOLTE AS RÉDEAS DA TUA POESIA
Tua poesia não se restringe
às letras encadeadas do poema,
que escreveste ou não.
Tua poesia sorri
na gratidão da tua paciência aos esquecimentos do pai.
No humor ao olhar de tua mãe, que te eterniza na infância.
Na amorosa tolerância aos defeitos dos teus amigos.
E na tua resignação ao ninho
vazio pelo voo justo dos teus filhos.
A poesia, que te é inerente,
mora em ti quase anônima
e exala na tua humanidade manifesta
em meio ao caos e o improvável,
feito florada fora de época.
DESPEDIDA
Despedir-se é dar adeus a uma parte de si.
É amando ainda a presença, deixar partir.
É alimentar-se da constância da ausência.
Emoldurar cacos de vivências,
irrelevantes, na memória.
Mantendo, em desespero,
a força contínua de uma história.
É aquecer-se solitário no frio.
É deixar voar, entulhando com retalhos de afetos
o ninho vazio.
É disparar-se numa via em sentido contrário.
Despedida é a nobreza calada do amor libertário.
ESTADO DE FOME
Há fome de fama e dinheiro.
Há fome de ascensão.
Há fome de domínio e revanche.
Há fome de ostentação.
Todas insaciáveis,
disfarçadas de saudável ambição,
ao tempo em que cresce a fome do estômago,
curável com alimentos em justa distribuição.
Nesse desequilíbrio,
parte da humanidade padece
por enfermidades da alma e compulsão,
enquanto a outra parte morre indigente
pela ausência de pão.
* Estado de fome é um conceito budista que caracteriza o baixo estado de vida em que pessoas são controladas por seus desejos insaciáveis, vivendo em estado de contínua insatisfação.
LETRAS MORTAS NO PORÃO
Houve um tempo em que letras
eram soterradas a sete palmos do chão.
Junto a corpos dizimados
pela ignorância de fuzil na mão.
Letras sem fala, sem grafia.
Esmagadas por coturnos
em um país soturno.
Nas ruas, o carnaval passava
enquanto a vida sem plenitude agonizava.
Mas ninguém notou.
Ninguém viu.
E uns ainda clamam,
renunciando à própria palavra,
por esse carnaval sombrio.