A arte não salva o mundo. Mas salva o minuto.
Frases de Matilde Campilho
22 frases
COQUEIRAL A saudade é um batimento que rebenta assim vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
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COQUEIRAL A saudade é um batimento que rebenta assim vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado de desastre até à rosa pendurada em sua boca E o amor, neste caso específico, é um mergulho destemido que deriva quase sempre de uma nota climática apenas para convergir no osso frontal do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.
Quando penso em ti eu esqueço o lixo que de manhã faz barulho
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Quando penso em ti eu esqueço o lixo que de manhã faz barulho à minha porta Pareces-te com o tempo das amendoeiras Tens tudo a ver com a escadaria semi-invisível que o mágico escavou no rochedo atlântico Sim tu pareces o Verão
Estamos aqui para vencer a dor E teu rosto diário faz lembrar a vitória do tempo sobre o tempo
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Estamos aqui para vencer a dor E teu rosto diário faz lembrar a vitória do tempo sobre o tempo Porque afinal de contas tu te pareces muito com a promessa de uma fé vagarosa & livre Pareces a coragem, pareces a paz
Aquele amor aquele que eu pensei que se despedaçaria como
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Aquele amor aquele que eu pensei que se despedaçaria como um meteorito no Minnesota (uma coisa assim estrondosa abusiva gritante maravilhosa estilhaço prolongado cheio de uivos) afinal caiu silencioso como um aviãozinho de papel passeando em Itaparica em dia da apanha dos morangos.
As revoluções sempre foram o lugar certo para a descoberta do sossego: talvez porque nenhuma casa é segura
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As revoluções sempre foram o lugar certo para a descoberta do sossego: talvez porque nenhuma casa é segura talvez porque nenhum corpo é seguro
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo, usando flores em meu cabelo negro, sempre escondidas no emaranhado dos cachos
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foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo, usando flores em meu cabelo negro, sempre escondidas no emaranhado dos cachos sempre escondidas no emaranhado do caos de minha cabeça negra. só você sabia quantas flores eu usava porque agora eu já sei que você dedicava as noites à contagem. Deus não dorme e você também não.
Fazes lembrar a alegria de um risco na parede desenhado a carvão
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Fazes lembrar a alegria de um risco na parede desenhado a carvão pela criança da manhã É no verde dos teus olhos que eu treino a disciplina de uma explosão sossegada
tenham atenção a esse nó que acontece no estômago no preciso momento em que
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tenham atenção a esse nó que acontece no estômago no preciso momento em que esperam por vosso amante
Neste começo d’hoje tuas costas negavam qualquer espécie de outono
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Neste começo d’hoje tuas costas negavam qualquer espécie de outono Afinal a ideia de estação é só um tema ilusional engendrado por humanos que nunca puderam desenhar tua coluna vertebral a dedo nu
Depois de acordarmos sempre ainda meio vivos um pouco ensonados
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Depois de acordarmos sempre ainda meio vivos um pouco ensonados é mais ou menos fácil entrar na vida depois dessas coisas Prometemos várias vezes que não trocaríamos o amor por jogatinas de pingue-pongue e quando finalmente percebemos que o ás do pingue-pongue é exatamente a medida certa do amor ajubilamos na gargalhada que só pode ser que afinal, sempre foi nós dois acreditamos nisso a herança de Deus para nós
Escute só isto é um poema não vai alinhar conceitos
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Escute só isto é um poema não vai alinhar conceitos do tipo liberdade igualdade e fé Não vai ajeitar o cabelo da menina que trabalha com afinco na caixa registadora do supermercado Não vai melhorar Não vai melhorar isto é um poema escute só não fala de amor não fala de santos não fala de Deus e nem fala do lavrador que dedicou 38 anos a descobrir uma visão quase mística do homem que canta e atravessa a estrada nacional 117 para chegar a casa ou a algum lugar próximo de casa.
Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles.
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sab…
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Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel
Certo que nos dedicamos a místicas peregrinações. Exercitamos a respiração,
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Certo que nos dedicamos a místicas peregrinações. Exercitamos a respiração, lutamos brigas orientais, praticamos uma e sete vezes a tradução do poema chileno. Mas no fundo sabemos que o que importa mesmo é roçar a superfície negra da pele do peito do anjo que está vivo que não dorme.
portanto eu pego minha bicicleta e como de costume você faz meu retrato de cabelo todo desenhado no vento
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portanto eu pego minha bicicleta e como de costume você faz meu retrato de cabelo todo desenhado no vento em jeito de menino que está sempre indo embora à mesma hora e que amanhã se tudo der certo voltará à mesma hora para o mesmo amor a mesma mesa a mesma explosão com toda a certeza a mesma fuga porque você e eu a gente é feito de matéria escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia e espanto.
Sim eu me aproximo cada vez mais de meu ascendente enquando faço pazes com meu sol
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Sim eu me aproximo cada vez mais de meu ascendente enquando faço pazes com meu sol Reconheço meus heróis aqueles que vieram antes e os que virão mais tarde Recorto suas descobertas mas pelo sim pelo não ainda guardo em meu bolso a nota de cinco dólares que me ofereceu o nômade que cantava no deserto.
um dia você escreve para seus pais falando sobre o amor
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um dia você escreve para seus pais falando sobre o amor quarenta dias depois teus pais te escrevem falando sobre redes de pesca e o perigo das redes de pesca um dia você me envia uma carta depois a outra o rasgão explode recordando ainda outra carta de alguns meses antes o postal eterno que dizia still crazy (after all these years) faço voto de silêncio mas na sacralização horária das avenidas eu penso que você
A nossa solidão é esta avenida decotada do passeio do acaso, furtiva e escancarada artéria tantas vezes paralela ao coração
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A nossa solidão é esta avenida decotada do passeio do acaso, furtiva e escancarada artéria tantas vezes paralela ao coração onde um almirante não serve a arquitetura onde sobe a miséria do terminal do elétrico até à igreja fronteira à sopa dos pobres efémeros sentinelas armando cartões nas fachadas das lojas, trastes, artigos de ocasião (apanham-nos de dia noivos investindo num projecto de família). O nosso é este meio de solidão que se carrega de qualquer coisa que não é bem perpétua atmosfera de névoa nem sujidade, que também é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus gastas), saudade, porque não, sentimento de povo sem pátria desmentido; crer creio nisto que na indigência e vício coexiste a gente dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras e por muito pouco desprende-se quase nada que se tem
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo com corpo de besta vestida
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foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo com corpo de besta vestida usando um lápis pousado na orelha
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar. E isso diz muito sobre minha caixa torácica.
O último poema do último príncipe Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar. E isso
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O último poema do último príncipe Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar. E isso diz muito sobre minha caixa torácica.