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Frases de Matilde Campilho

22 frases

A arte não salva o mundo. Mas salva o minuto.
COQUEIRAL A saudade é um batimento que rebenta assim vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
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COQUEIRAL A saudade é um batimento que rebenta assim vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado de desastre até à rosa pendurada em sua boca E o amor, neste caso específico, é um mergulho destemido que deriva quase sempre de uma nota climática apenas para convergir no osso frontal do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo, usando flores em meu cabelo negro, sempre escondidas no emaranhado dos cachos
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foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo, usando flores em meu cabelo negro, sempre escondidas no emaranhado dos cachos sempre escondidas no emaranhado do caos de minha cabeça negra. só você sabia quantas flores eu usava porque agora eu já sei que você dedicava as noites à contagem. Deus não dorme e você também não.

Depois de acordarmos sempre ainda meio vivos um pouco ensonados
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Depois de acordarmos sempre ainda meio vivos um pouco ensonados é mais ou menos fácil entrar na vida depois dessas coisas Prometemos várias vezes que não trocaríamos o amor por jogatinas de pingue-pongue e quando finalmente percebemos que o ás do pingue-pongue é exatamente a medida certa do amor ajubilamos na gargalhada que só pode ser que afinal, sempre foi nós dois acreditamos nisso a herança de Deus para nós

Escute só isto é um poema não vai alinhar conceitos
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Escute só isto é um poema não vai alinhar conceitos do tipo liberdade igualdade e fé Não vai ajeitar o cabelo da menina que trabalha com afinco na caixa registadora do supermercado Não vai melhorar Não vai melhorar isto é um poema escute só não fala de amor não fala de santos não fala de Deus e nem fala do lavrador que dedicou 38 anos a descobrir uma visão quase mística do homem que canta e atravessa a estrada nacional 117 para chegar a casa ou a algum lugar próximo de casa.

Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sab…
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Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel

portanto eu pego minha bicicleta e como de costume você faz meu retrato de cabelo todo desenhado no vento
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portanto eu pego minha bicicleta e como de costume você faz meu retrato de cabelo todo desenhado no vento em jeito de menino que está sempre indo embora à mesma hora e que amanhã se tudo der certo voltará à mesma hora para o mesmo amor a mesma mesa a mesma explosão com toda a certeza a mesma fuga porque você e eu a gente é feito de matéria escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia e espanto.

um dia você escreve para seus pais falando sobre o amor
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um dia você escreve para seus pais falando sobre o amor quarenta dias depois teus pais te escrevem falando sobre redes de pesca e o perigo das redes de pesca um dia você me envia uma carta depois a outra o rasgão explode recordando ainda outra carta de alguns meses antes o postal eterno que dizia still crazy (after all these years) faço voto de silêncio mas na sacralização horária das avenidas eu penso que você

A nossa solidão é esta avenida decotada do passeio do acaso, furtiva e escancarada artéria tantas vezes paralela ao coração
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A nossa solidão é esta avenida decotada do passeio do acaso, furtiva e escancarada artéria tantas vezes paralela ao coração onde um almirante não serve a arquitetura onde sobe a miséria do terminal do elétrico até à igreja fronteira à sopa dos pobres efémeros sentinelas armando cartões nas fachadas das lojas, trastes, artigos de ocasião (apanham-nos de dia noivos investindo num projecto de família). O nosso é este meio de solidão que se carrega de qualquer coisa que não é bem perpétua atmosfera de névoa nem sujidade, que também é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus gastas), saudade, porque não, sentimento de povo sem pátria desmentido; crer creio nisto que na indigência e vício coexiste a gente dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras e por muito pouco desprende-se quase nada que se tem