Insônia
Deito-me para dormir
A carne cansada
O gato ecoando seu ronronar no breu do quarto.
E então, ele me foge
Se apaga como névoa ao ver sol.
A doce sensação do sono atrás das pálpebras, antes do cérebro, da lugar à
Remorso e amargura.
Não tem jeito.
Pego uma das cartelas cheias
Entre as vazias largadas pelo quarto.
Quando cai no estomago é como um abraço da mãe.
Estripa-las
Estripa-los
Rasgar
Arrebentar.
A anatômia podre de suas almas
Arrancar as máscaras risonhas
Presas em tuas faces
Expondo o amargor
De teus ossos e carne.
Teu sangue jorraria
Como chafariz
As vísceras floresceriam
Das entranhas.
Eu arrancaria suas cordas vocais,
E como um luthier,
Encordoaria meu violino.
Suas palavras nunca feririam.
COMEDOR DE MIGALHAS
Me fartei em você
E você fartou-se em mim.
Gemi até
O vizinho do último andar escutar
E reclamar
Mas nós continuávamos
Absortos do mundo banal.
E seu corpo suava
Escorrendo como rio
Em cima de mim.
As minhas entranhas
Nunca sentiram
Tamanho prazer
Febril.
E agora
Esmolo
Por seu toque
Até mesmo seu olhar
De atenção.
Comedor de migalhas.
CONFORTO
Amo o conforto do seu peito
Mas o mundo mundano
Me chama lá fora.
Até quando
Seu peito continuará
Confortável?
Me pergunto se já não
Estou sendo sufocado
Fagocitose canibalística
Quando eu me apaixono
Como todo animal arisco, com o tempo
Me deixo conquistar
Fico manso, e como fico!
Afundo na paixão
Afundo no desejo
Afundo no prazer
Até atingir a inércia
E o coração me fagocita
Como um canibal.
Aos que amam
Algum dia
Alguma hora
Alguma vez
Serão fagocitados
Pelos seus próprios corações.