Abro a porta do armário Com o chá já quente no bule. São oitenta e sete xícaras,
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Abro a porta do armário Com o chá já quente no bule. São oitenta e sete xícaras, quatro leiteiras e um medo. Me sirvo pensando em você... É que minha nova mania é olhar leilões: é imaginar a senhora que morreu e colheu, numa vida, esses nove pratos de bolo. O senhor dos treze cachimbos que amava móveis de jacarandá, agora, já não mais tem pulmões pra estragar. Se desfazer de uma vida, de um lar inteiro. Da bengala e do querido relógio com ponteiro quebrado Dos lençóis, da aliança, do velho e amarelado cinzeiro -no desespero a família contacta Conrado, o leiloeiro. Alguém pode dar nova vida a esses pratos rasos Às cadeiras que foram compradas para dois - que eram seis e pareciam excesso - até a chegada, inevitável, dos netos. Um lote com trezentos e sete selos para quem? Mais que o dinheiro É preciso um motivo para a coleção gigante Ou o pequeno açucareiro. Folheio lotes e lotes de uma estranha melancolia encantada: Que belo aparelho de chá! Quantas conversas já não presenciaram essas peças de porcelana verde? Mais um gole com o pulsar aflito: E eu? O que será de mim, Mãinha? Como hei de um dia esvaziar o armário? Quando restarem de ti essas xícaras, as leiteiras, e já sem voz, tuas flautas, o que sobrará então, de mim? Como beber nelas café, Quando torrões de açúcar resultarem inúteis?