Em meio a esta escura fonte de silêncio, perplexidade, indignação e medo, onde já não sabemos mais o que desejamos saber ou que queremos entender, porque quase tudo é confusão em vasta integração com pessimismo e visões de vontades sem lugar, invocamos um teatro necessário, uma presença cênica em cada espírito desorbitado, no calor elucidativo dos risos e das lágrimas.
Sua retorica vai pelos ares e com elas suas formas breves de repetir e repetir as angustias e pesares. Sua retórica vai pelos ares, seu exílio não explica suas ânsias, suas interpretações atropelam seus limites, suas palavras evaporam, sua memória é só melancolia, restando apenas este sono, este corpo calado, esta alma falsa, indefinida e seca.
Mais um, mais outros e outras, centenas, milhares, milhões, Lançado advertências com o corpo e a alma
Com o saber direto da agonia, o saber que chega primeiro pelo vento
Nada mais além do espanto, do medo, desta invisibilidade
Esperando em todos os lugares
Fazendo contas dos caminhos
das rugas
das coisas perdidas
das rusgas
das apostas
do que já não me lembro
de quando saí ganhando
do muito que perdi
dos sonhos
das noites repetidas
dos dias vagos
passei horas fazendo contas
depois de tudo que deu errado
do tempo impondo gravidade
do desespero clamando por suavidade
das hegemônicas fragilidades
das minhas formalidades ultrajadas
das fantasias andrajosas
da poesia movediça
minhas distâncias
gravadas em cada palavra
em cada dissimulação
nesta impiedosa memória
desta existência desfolhada
Subalternos da segurança, ainda envolvidos na substância viscosa que converte a coragem em avisos de arrependimento, quem decifrará mais este lote de desdém fetichista? Quem está seguro para mudar o mundo terceirizado sem prévio aviso? Quem, ainda em farrapos, inaugura repetidamente o que é mais supérfluo nos piores empregos? Quem decifrará a incendiária vaidade nas numerosas intenções de paz? Numerosa é a fome e a miséria que a gente ignora nos pequenos zeros do soldo mensal. O que tenho a ver com todas estas máscaras inúteis? O que faço com estas esperanças provisórias depois de mais uma derrota? Ninguém escuta a vida como ela é. Triste é alegria de quem não consegue escutar a vida como ela é. Ouve-se em toda parte uma enorme variedade de discursos artesanais sobre o desespero de quem não escuta a vida como ela é.