Pular para o conteúdo

Frases de Maddu Barboza

1 frases

Parte da minha vida foi movida pela arte. Quadros, cartas, letras de músicas, livros, instrumentos, fotografias e desenhos por todos os lados formaram um universo afetivo, no qual uma família profundamente ligada ao artesanal me ensinou o valor da sensibilidade. Crescer rodeada…
Continuar lendo

Parte da minha vida foi movida pela arte. Quadros, cartas, letras de músicas, livros, instrumentos, fotografias e desenhos por todos os lados formaram um universo afetivo, no qual uma família profundamente ligada ao artesanal me ensinou o valor da sensibilidade. Crescer rodeada de livros, pinturas e liberdade criativa — ainda que levemente restringida por opiniões sociopolíticas distintas da minha visão — moldou a maneira como vejo o mundo. A arte me ensinou que, para ser compreendida, era preciso colocar-me no lugar do outro, observar o mundo por diferentes perspectivas. Com o tempo, percebi que essa experiência estética não era apenas expressão, mas sobrevivência. As cores, as melodias e as palavras foram, para mim, mais do que adornos: foram abrigos. Em meio a uma sociedade que frequentemente banaliza o sentir, encontrei na arte um espaço legítimo para existir. Este ensaio busca refletir sobre a arte como veículo de resistência e autoconhecimento, um meio de compreender a mim mesma e ao outro dentro de uma estrutura social que, por vezes, desumaniza as emoções. Crescer entre livros e pinturas moldou minha forma de perceber o outro. Lev Vygotsky (2001) afirmava que “a arte é um meio de comunicação entre as pessoas através de emoções vividas”, e talvez por isso eu tenha aprendido, desde cedo, que compreender o outro é também um gesto artístico. A empatia, nesse sentido, foi uma lição estética antes de ser moral. Com o passar dos anos, a escrita tornou-se meu refúgio. Em cada palavra, havia o desejo de libertar o coração das correntes invisíveis que o mundo insiste em apertar. Clarice Lispector (1999) compreendia essa força da linguagem ao dizer que “a palavra é o meu domínio sobre o mundo”. Escrever, para mim, é transformar dor em criação, e criação em sentido. Costumo pensar que sou muitas em uma só. Esse constante processo de (re)criação ecoa o pensamento de Carl Gustav Jung (2012), para quem o ato criativo está profundamente ligado à individuação, nessa a jornada de integrar as várias partes do ser. Em cada gesto criativo, há uma tentativa de reunir o que o mundo separa. Friedrich Nietzsche (1992) afirmava que “temos a arte para não morrer da verdade”, reconhecendo o poder vital do ato criativo. A arte é mais do que estética: é um modo de permanecer humana diante da brutalidade do real. Ernst Fischer (1983) reforça essa ideia ao afirmar que “a arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo”. Transformar o que sinto em arte é, assim, um gesto político, como uma maneira de afirmar o valor do afeto em um mundo que o despreza. A teórica bell hooks (2000) escreve que “o amor é definido como ‘a vontade de se doar com o propósito de nutrir o próprio crescimento espiritual ou o de outrem’. O amor se manifesta em suas ações. O amor é um ato de vontade — tanto uma intenção quanto uma ação”. Enxergo na arte esse mesmo gesto de amor: um compromisso com o sensível e o que ainda é humano. Quando a arte se torna linguagem de afeto, ela deixa de ser apenas individual e passa a ser uma força coletiva de resistência, capaz de restaurar o que a estrutura social insiste em ferir. A arte me ensinou que sentir é um ato revolucionário. Num mundo em que a superficialidade se tornou norma e a emoção é vista como fraqueza, criar é resistir. Por meio da escrita, da música ou das imagens, encontrei não apenas expressão, mas também sentido. Fischer (1983) nos lembra que a arte é necessária para transformar o mundo; eu acrescentaria que ela também é necessária para não nos perdermos dentro dele. Transformar o sentimento em arte é afirmar a vida, é insistir na beleza mesmo quando tudo parece tentar negá-la. Assim, sigo usando a arte como veículo, não apenas para dizer o que penso, mas para existir com sentimento num mundo que tantas vezes tenta nos ensinar o contrário.