Não é trocando um governo anárquico por outro autoritário que conseguimos resgatar o estado de direito. Historicamente as grandes rupturas com força para gerar transformações sociais definitivas ocorreram de baixo para cima, e não de cima para baixo, assim que se chegue ao ponto de saturação como reação espontânea aos abusos dos dois extremos. Esqueça-se, portanto, a ideia de que colocar no poder uma força contrária e igualmente sem freios para combater os excessos cometidos antes dela será solução para alguma coisa, pois tudo se resume a inverter tão somente a natureza do problema.
Já me perguntaram a razão de tantos pensamentos lançados sem destino certo. Respondo que não escolho fazê-lo, pois que brotam de mim como lavas de um vulcão a que não resta alternativa senão lança-las para fora. Assim como ao pensador, ao vulcão não importa que distância alcançam, e menos ainda o tipo de terra que cobrem. O que a ambos suscita é que a mesma lava que parece tão destrutiva no momento da erupção, ao longo de toda a eternidade continuará fertilizando o solo que a acolhe.
Tem algumas pessoas que fazem com que a gente se sinta abrindo a janela todas as manhãs para receber a luz que emitem, e acha a coisa mais natural do mundo que isso se repita eternamente, de forma obrigatória e quase imperceptível. Até um dia em que as cortinas abertas não repetem o brilho e o calor dos anteriores e a sensação enorme de frio – seguida da percepção do escuro – adentra os ossos, nos dando conta do quanto nos eram essenciais!
Com tantas atrocidades cometidas por muitos que trazem o mal de índole, além de outros tantos que levam o caos à vida humana por conta de sua inconsciência, um número grande dos conscientes e responsáveis são impedidos de tocar a sua às vezes por uma mera dificuldade funcional num exame de trânsito. A forma de reduzir o desequilíbrio é focar em sermos melhores a cada dia, de modo a tornar o mundo menos pesado pelo menos para aqueles que nos rodeiam.
Só os mais sensíveis conseguem distinguir as pessoas essencialmente más daquelas que adotaram o mal como forma de se defender de um mundo que nunca as tratou bem. As primeiras, para nossa sorte, não são a maioria, e as outras dependem das sensíveis e generosas para perceber isso, pois que precisam apenas receber amor e respeito para reaprender a oferecê-los.
Uma encruzilhada apresentará sempre duas direções além daquela de onde você veio: uma à direita e outra à esquerda. Qualquer delas o afastará do caminho do meio, conduzindo-o a um dos extremos. Mantendo-se na que vem seguindo, o risco será reduzido por já conhecer a estrada, além da reta mostrar de longe para onde leva. Extremos nunca se mostram, portanto, como referência de equilíbrio e bom-senso.
Muitas pessoas são como o azul e o amarelo saídos de pontos distintos que se cruzam, por um único e breve momento, para formar o verde no qual resultam os filhos, devendo depois seguir em frente para completar o “X” cujas linhas apenas se afastam
e nunca correrão paralelas, pois que já cumpriram a única e bela missão para a qual nasceram destinadas. O próprio Cristo quis ser esse ponto de intercessão para mostrá-lo aos que teimam em contrariar seus propósitos.
Os descrentes, amargos e agressivos que nos são próximos estão fadados a uma vida triste e solitária, além de bem mais breve que as dos demais, uma vez que afastam de si todos os que poderiam oferecer-lhes auxílio. Quantas vezes temos a solução para o que precisam, mas nos vemos impedidos de ajudá-los, pois que nos constrangem o espírito e, para nos protegermos de suas amarguras, somos obrigados a permanecer à distância, por mais que isso nos entristeça.
O mal não reside necessariamente no que os outros são, mas naquilo em que conseguem nos transformar quando se aproximam de nós. Percebo-o quando o desprezo que me fazem sentir por mim mesmo depois de um convívio de algumas poucas horas revela poder suficiente para me abalar por dias seguidos!
O destino das sementes as separa em três grupos: as que se espalham sobre rochas impenetráveis e fenecem; as caídas sobre terras rasas que não conseguem aprofundar suas raízes, e logo secam; e as que encontram terras férteis e profundas que em seguida as transformam em árvores frondosas!
Pessoas manipuladoras se mostram perigosamente nocivas porque adulteram tudo a seu favor no contato com as demais, comprometendo suas reputações por mais íntegras que se mostrem. E isso porque são hábeis em culpar os outros pelo que intencionalmente produzem na tentativa de obter vantagens. Mas o pior vem depois, quando espalham aos quatro ventos que elas é que foram vítimas das artimanhas criadas para manipular aquelas das quais se aproximam. A única forma de proteção é permanecer bem longe de suas teias, por mais sedutoras que se mostrem, já que a sedução também é parte indissociável do processo.