Em alguns momentos nos descobrimos adotando medidas tão rudes que chegam a doer-nos no peito. Tal sentimento, entretanto, passa mensagens importantes sobre nós mesmos: a primeira permite que tenhamos a exata dimensão da agressão sofrida, grande o bastante para acordar nossos demônios; a segunda é a de que, se doem em nós, provam que produzir danos não é inerente à nossa essência; e a terceira é a de que fomos despertados para o irrenunciável sentido de renovação que estivera adormecido – e do quão tardia se fez a decisão – apenas pelo tamanho da alegria frente à vastidão do horizonte que se descortina. Mas o ápice do prazer ocorre quando, lá de dentro de nós, eclode o vulcão que expele a pergunta que, como lava fervente, nos atinge em cheio a consciência: “Meu Deus!... Por que precisei demorar tanto?”
O risco de não se dar tratamento digno e justo às pessoas é que, a partir da hora em que um primeiro se rebela, estabelece-se um referencial para que outros o imitem ao se perceberem na mesma situação de subserviência. No momento seguinte o agente dominante terá em todos os demais uma potencial ameaça de desmantelamento em cascata de sua estrutura de poder, tendo então que conviver com uma espada pendendo sobre sua cabeça durante todo o tempo em que permanecer repetindo com os que ficam os mesmos erros cometidos com o rebelado. Se for inteligente, restar-lhe-á então usar a experiência para mudar o rumo ou caminhar inexorável e seguramente para sua tragédia anunciada.
Você nunca precisará se preocupar com o que eventuais adversários poderão dizer de você. Nada falará mais alto do que a credibilidade que angariou em sua trajetória, nem poderá haver escudo mais resistente contra os que tenham interesse em desconstruir sua imagem do que a consolidada sob a égide da integridade ao longo de todo um histórico de vida. É em sua história, portanto, que deve concentrar sua atenção desde o começo, pois só ela terá poder de confirmar ou desmentir seus oponentes.
Se você tem medo de chutar o balde quando se vê impedido de continuar crescendo, saiba que esse pontapé pode ser tudo o que precisava para resgatar sua dignidade, lembrá-lo de que tem muitos talentos, insuflar-lhe auto-estima, devolver-lhe a alegria, ampliar-lhe o leque de alternativas e descobrir que só precisava da decisão para retomar o gosto pela vida, transformando-a numa nova sequencia de conquistas.
O que se mostra mais insuportável para os que se alimentam do controle sobre todos que os cercam é constatar que já o perderam tanto em relação à situação quanto sobre si mesmos, só lhes restando exercê-lo sobre a raiva que trazem represada dentro de si para não confirmar que alguém mostrou mais inteligência do que a que precisam provar que possuem.
Para quem usa de rigor no cumprimento de suas responsabilidades muitas vezes se mostra extremamente sofrido – e até torturante – ter que deixar o balde entornar quando a outra parte envolvida simplesmente ignora o acertado para se manter dando as cartas, como é de sua natureza. Dói principalmente saber que outros pagarão o preço do que deixará de ser feito, mas se continuarmos a apagar incêndios de última hora para prevenir mortos e feridos nos tornamos coniventes com o domínio ilegítimo que tentam impor sobre o nosso inalienável direito de escolha, e jamais voltaremos a recuperar as rédeas da própria autonomia.
Eu não me permito ser ferido numa guerra apenas para destroçar o inimigo, pois que o adversário não merece tal sacrifício. Sou, porém, capaz de mergulhar num combate mortal – em que apenas um dos lados sairá com vida – ao concluir que esse é o único preço a pagar pela minha dignidade.
Não só se mostra desgastante quanto absolutamente improdutivo dispender energia medindo forças com quem se ocupe em esvaziar o valor de que te sabes detentor. Concentra-te apenas em deixar patente que tua inteligência é bem mais eficaz para defender-te do que a usada pelo oponente com o intuito de te sobrepujar.
Sempre se disse, e não há como desmenti-lo, que a criatividade é uma das mais importantes qualidades do ser humano. Mas seu excesso produz como efeito colateral um impacto paralisante sobre as rotinas obrigatórias, que lhe é contrária, mas que se prestam a garantir a estrutura onde a criatividade floresce. Se abrirmos espaço somente para o novo trazido por esta, a rotina que a sustenta entra em arriscada paralisia que acaba por inviabilizar a ambas. Há que encontrar tempo, portanto, para não tratar a uma como tortura e a outra como compulsão.
Ainda que passe tal impressão, arrogante é quem se arroga uma competência que não possui, ou esteja imbuído da pretensão de mostrar o que não consegue se impor como verdadeiro. Quem possui o conteúdo que exibe pode não agradar os desprovidos dele, mas nunca poderá ser taxado de impostor, ou ter subtraído o seu legítimo valor.
Se você supõe oferecer muito acima do que o outro merece, mas este se mantém firme para sustentar posições que o contrariam – mesmo com risco de perder a posição que você tão magnanimamente acredita estar lhe proporcionando – um pouquinho de bom-senso e inteligência o fará concluir que ninguém escolhe perder algo que o esteja realizando simplesmente para ser do contra, e só isso já deveria prestar-se a uma reflexão se o que está oferecendo em troca daquilo que cobra é tão bom assim quanto você acredita.
Sabem qual a principal diferença entre um bandido oportunista – que entrou no esquema por uma vantagem imediata – e o pulha de carteirinha, contumaz e consciente? É que o primeiro treme nas bases quando é apanhado, morre de vergonha de ter sua foto nos jornais e depois entrega o jogo todo em que foi envolvido. O segundo jamais! Vai subir na tribuna, desafiar todo mundo a apresentar as provas, aparecer na TV, dar entrevistas e continuar segurando seu cargo até o último instante, e mesmo quando já estiver na cadeia com tudo provado, vai erguer o punho triunfante e se posicionar perante a sua gangue como um paladino da coragem frente à corja de "justiceiros" que "armaram" para o deixarem fora do front de batalha! De admirável mesmo, só possuem o cinismo inabalável e a obstinação para sustentar o insustentável!
Por conta de uma sociedade que se estruturou sobre corrupção como meio de vida, sou um desses sujeitos tidos como “certinhos otários”, ingênuos candidatos a vítimas preferenciais dos “mais espertos”, ou tidos sistematicamente como inflexíveis e fora de contexto, até descobrirem que sou apenas mais um “panaca” que optou por ser honesto.
Para quem traz uma natureza generosa pode ser extremamente doloroso mostrar-se duro e impessoal, mas a generosidade passa pela promoção do crescimento alheio, e muitas vezes esse crescimento pede um comportamento oposto ao que se possui, e do quão doído se mostre, para que o outro possa perceber o sofrimento que produz. Relevá-lo não apenas se mostraria ineficaz quanto injusto em relação aos que exercem sua generosidade como recíproca natural.
Alguns têm dificuldade para fazer a escolha certa entre o que quer, o que pode, o que deve e o que convém. Imaginem algo como, por exemplo, perdoar alguém, onde minha natureza pacífica me diz que quero, a distância entre mim e o outro mostra que posso, já a realidade me aconselha que não devo, e o bom-senso me confirma que não convém, a menos que me mostre disposto a conviver com o inaceitável.
Não se chame de “torcida” a prática de bandidagem, nem de “torcedores” esses marginais que usam o futebol como pretexto para exercitar sua falta de caráter, camisa de time como disfarce de quadrilhas, estádios como palco para dar vazão a instintos criminosos e espaço repleto de vítimas para suas ações espúrias. Torcedor não precisa se organizar para incentivar seu time, e muito menos matar em nome dele.