Pequenos raios dourados remanescentes do falso brilho do sol, arrancam alegria da amargura e personificam o quantum de amor que exite em todo o ódio.
Inocência que sai pelos poros da luxúria frívola daquilo que deveria ter sido amor, mas não foi, para não ocupar o lugar da doçura quente, tardia e atemporal que traz à tona a verdadeira insanidade que é o amor confrontado à realidade.
IMORTAIS
No fim do arco multicolorido
da Mensageira de Hera
Me aguardava leviano
O anjo que combinava o som com o silêncio
Que sucedeu a morte dos filhos de Urano
A voz grave e melódica
De coração dissonante
Cantava o silêncio de força orquestral
Que profetizava o arranjo final.
O anjo enfermo que quer curar
E se cura
Almas expostas que sangram
E sangrando se misturam
Até se tornar singular
E a alma ensolarada e siamesa
Regra os excessos e duplica sua força
Surgida do vazio original
Amparada por Eros percorre do Caos ao Cosmo
Se tornando imortal.
A Dama
Assumo a loucura que me imputam. Todas elas.
O rótulo dos amigos com bons olhos, o da família, o da sociedade, e o de toda a turma da psiquiatria.
Assumo a loucura, mas não a consciência da loucura, pelo menos não a consciência plena que ultrapassa o diagnóstico e se aprofunda na psiquê.
Assumo a loucura diagnosticada mas não a visão de mim mesmo como tal. Talvez seja aí que se encontra a gravidade da coisa, ou não.
Queria mesmo era alguma explicação. Tudo me parece tão louco, tão do avesso em contraste com a minha exclusiva sanidade, que me faz questionar se sou eu, ou o resto do mundo que enlouqueceu. O pior de tudo é que o fato de passar pela minha cabeça que pode ser eu a louca, já demonstra um mínimo de sanidade mental. Ou não? O que me incomoda é a dúvida, a incerteza.
Assumo a loucura. Tudo bem! Mas ao assumir a loucura, presumo instantaneamente que esse é um ato de uma pessoa sã. É nesse ponto que minha cabeça começa a doer e me sinto como a Dama do baralho, dividida em duas. Cabeça pra cima, cabeça pra baixo, sem saber qual é a real e qual é a imagem refletida. Isso me parece sintoma de loucura, mas como tive a consciência e a plena capacidade de analisar minha própria loucura, me sinto sã.
Acho que é hora de parar. Tire suas próprias conclusões se quiser. Quanto a mim vou tentar ficar bêbada (só por hoje) para ter ao menos um momento de certeza nessa minha existência incerta. Bêbados são sempre bêbados e nada mais.
BIG BANG
Provocada pelo filho do vento
Disforme e rejeitado
A partir da erupção quente e densa
Do vulcão dantesco
A expansão dos meus dissabores
Arranca minha pele
Dilacera minha carne
Deixa expostos meus temores.
Com a alma em carne morta, eu existo
Nascida da explosão vazia
Que ecoa num grito expressionista
Da arte demente de Munch
E percorre, tortuoso, o papel
Misturando letras com lágrimas
De água e óleo na pedra calcária
Imprimindo meu pesar
Em recitativa ária
De uma diestesia evoco o grande Shaman
Que cala todos os sinos para que eu vire poeta
Transformando em arte a minha agonia
Porque o Big Bang da Alma é a poesia
MÚSICA ALTA
Ontem eu fui ao inferno em busca de aventuras
O som estava alto do jeito que eu gosto
O cheiro era morno, a cerveja era quente
Risadas histéricas, uma loira gelada
Dançando lindamente
O inferno acolhe em seus braços
Bancando o indulgente
As almas enfermas, de olhar embebido
Em água e sódio
Que carregam o triste sorriso do incoerente
E celebram para abortar o ódio
O inferno te envolve em um enredo
Te lambe sem segredo
Com sua língua bifurcada e repelente
Enquanto a vida, obediente
Segue o curso que seguiria se você não tivesse o medo
De viver e de ser gente.
Tudo o que você ama e preza
O inferno ignora
O vendedor do ingresso te despreza
Quem você amava, morreu
A bússula que te norteava
Agora só aponta para baixo
As crianças cresceram e não carregam nada seu.
Você agora é um morto-vivo
Que passa os dias olhando sua vida estagnada
Através de uma janela trincada pelo calor
Você não sente nada.
A música fica alta demais quando você quer descansar.