área urbana é definida como ‘‘má’’. Embora, porém, muitos tenham especulado nessas direções, nossa missão atual é extrair de autores do século XIX, como Tönnies, ideias que
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área urbana é definida como ‘‘má’’. Embora, porém, muitos tenham especulado nessas direções, nossa missão atual é extrair de autores do século XIX, como Tönnies, ideias que iriam influenciar os que voltaram sua atenção para a avaliação do impacto dos novos veículos de comunicação na sociedade. Tal como um acúmulo de teorias e invenções das ciências naturais conduzira à base física sobre as quais se desenvolveram os próprios veículos, a acumulação de ideias sociológicas referentes à natureza da ordem social contemporânea contribuiu com o fundamento de ideias sobre as quais foram tentadas as interpretações da mídia quando os veículos se tornaram realidade. Análise da Divisão do Trabalho por Durkheim Antes de conjugar os vários conceitos que examinamos em algum tipo de imagem teórica composta da sociedade, conforme encarada ao término do século XIX, há mais um autor cujas ideias foram de particular significação. Perto do final do período (1893), Émile Durkheim publicou Divisão Social do Trabalho. Nessa importante obra, congregou os diversos temas correlatos que anotamos acima das obras de Comte, Spencer e Tönnies.9 Solidariedade Mecânica versus Orgânica. A finalidade global da prolongada análise de Durkheim foi revelar como a divisão do trabalho de sociedade de massa e teoria da bala mágica 173 uma sociedade era a principal fonte de solidariedade social nessa sociedade, e que à medida que a divisão do trabalho fosse alterada (como, por exemplo, graças à evolução social), as forças unificadoras da sociedade sofreriam mudança correspondente. A solidariedade diz respeito aos tipos de vínculos psicossociais que unem os membros, e malgrado Durkheim empregasse terminologia muito diferente, estava se voltando, grosso modo, ao mesmo problema genérico que Tönnies. Por divisão do trabalho, Durkheim tinha em mente mais do que o grau de especialização na instituição econômica: (Devemos indagar) se a divisão do trabalho... em sociedades contemporâneas, onde se desenvolveu como sabemos... não teria como função a integração do corpo social a fim de garantir a unidade. É bem legítimo admitir... que grandes sociedades políticas podem manter-se em equilíbrio somente graças à especialização de tarefas, que a divisão do trabalho é a fonte, se não única pelo menos a principal, da solidariedade social. Comte adotou este ponto de vista. De todos os sociólogos, ao que saibamos, ele foi o primeiro a identificar na divisão do trabalho algo mais do que mero fenômeno econômico. Viu nisso ‘‘a mais essencial condição da vida social’’, admitindo que se a concebe ‘‘em toda sua extensão racional; o que quer dizer, que a divisão do trabalho se aplica à totalidade de todas as nossas diferentes operações, sejam lá de que natureza forem, ao invés de atribuí-la, como é feito comumente, a meras utilizações materiais.’’ 10 Para mostrar as implicações sociais da divisão do trabalho, Durkheim contrastou solidariedade mecânica com orgânica. Solidariedade mecânica é a que une pessoas que são essencialmente idênticas. Graças à sua vida em comum, e na presença de mera divisão rudimentar da mãode- obra, os membros de uma dada população elaboram uma série de crenças, valores e outras orientações a que são intensa, comum e uniformemente devotados. Na medida em que essas orientações sejam verdadeiramente características de cada membro, resta escassa base para a expansão da individualidade extensivamente. Onde há pouca ou nenhuma divisão do trabalho, as pessoas não só agem de maneiras semelhantes, sugeriu Durkheim, como também pensam e sentem de maneiras semelhantes. Nesse tipo de sociedade, ‘‘a solidariedade só pode crescer na razão inversa da personalidade’’, porque personalidade é o que distingue uma pessoa da outra. ‘‘Se temos um desejo forte e intenso de pensar e agir por nós mesmos, não podemos ser fortemente propensos a pensar e a agir como outros fazem.’’11 No caso extremo, toda a individualidade submergiria, e os membros da sociedade seriam completamente homogêneos em sua organização psíquica pessoal. Em tal caso admitidamente teórico, os membros da sociedade seriam completamente uniformes em suas ações. 174 os efeitos da comunicação de massa As moléculas sociais que possam ser coerentes desta maneira só podem agir juntas na medida em que não possuam ações próprias, como as moléculas de corpos inorgânicos. Por isso, propomos chamar isso de solidariedade mecânica. O nome não significa que ela seja produzida por meios mecânicos e artificiais. Chamamo-la assim só por analogia com a coesão que une os elementos de um corpo inanimado, em contraste com a que faz a unidade dos elementos de um corpo vivo.12 É perfeitamente óbvio que nenhuma sociedade jamais se caracterizou completamente por este gênero de organização social. A ideia de solidariedade mecânica, como base para unir membros de uma coletividade ao conjunto, é proposta desta maneira como um construto abstrato antes do que como uma descrição que supostamente retrate a realidade com total precisão. O mesmo pode ser dito acerca da segunda concepção importante de Durkheim, a solidariedade orgânica. Tomadas em conjunto, todavia, as duas oferecem uma terceira moldura interpretativa, útil para a compreensão do surto da sociedade moderna. Se a solidariedade mecânica baseia-se na homogeneidade, então a solidariedade orgânica baseia-se na heterogeneidade. Em uma sociedade com uma bem desenvolvida divisão do trabalho, todas as pessoas desempenhando encargos especializados dependem das outras cujas atividades sejam coordenadas com as suas. Spencer elaborara com extraordinária minúcia os paralelos entre organismos e sociedade como sistemas unificados de partes funcionando reciprocamente. Durkheim viu a dependência mútua produzida pela dependência, e identificou-a como um tipo de força social que obrigava os membros de uma sociedade a juntos formarem um todo de funcionamento mais ou menos harmonioso. O fator importante, porém, é que a divisão do trabalho, que gera solidariedade orgânica, também incrementa grandemente o grau de individualidade e diferenciação social dentro da sociedade: Enquanto o tipo anterior (de solidariedade) subentende que os indivíduos se pareçam uns com os outros, este tipo pressupõe sua diferença. O primeiro só é possível na medida em que a personalidade individual seja absorvida na personalidade coletiva; o segundo só é possível se cada um possui uma esfera de ação que lhe seja peculiar — isto é uma personalidade. É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe aberta a parte da consciência individual a fim de funções especiais poderem ser instaladas ali, funções que ela não possa regular. Quanto mais seja expandida essa região, tanto mais forte será a coesão resultante de tal solidariedade.13 Isolamento Psicológico. Durkheim prosseguiu para mostrar como o crescimento da divisão do trabalho agrava a dependência de cada pessoa especializada em relação às demais, mas isso não quer dizer que tal crescente heterogeneidade conduza a consenso de pensamento. Pelo contrário: ‘‘Cada indivíduo adquire cada vez mais seu próprio modo de pensar e de agir, e submete-se menos completamente à união corposociedade de massa e teoria da bala mágica 175 rativa comum.’’14 Assim, embora num sentido as pessoas altamente especializadas estejam presas em uma teia de dependência funcional com relação a outras, ao mesmo tempo se acham isoladas num sentido psicológico, pois as especializações conduzem-nas a desenvolver individualidade cada vez maior. Durkheim também observou que a evolução da sociedade para forma mais complexa conduz a um crescimento dos relacionamentos sociais, do mesmo gênero que Tönnies chamou Gesellschaft: ‘‘É bem verdade que relações contratuais, que eram inicialmente raras ou quase ausentes, multiplicam-se à medida que o trabalho social se torna dividido.’’ 15 Destarte, um aumento na divisão do trabalho resulta não só em aumentar a heterogeneidade individual, como em introduzir em número cada vez maior de relacionamentos mais formais e segmentados entre as pessoas. Anomia. Finalmente, Durkheim viu que, sob dadas circunstâncias, a divisão do trabalho podia resultar no que ele denominou ‘‘formas patológicas’’. ‘‘Conquanto normalmente’’, disse ele, ‘‘a divisão do trabalho produza solidariedade social, ocorre que às vezes tenha resultados diferentes, e até mesmo contrários’’.16 Se funções sociais, isto é, partes da estrutura orgânica, não se acham bem articuladas umas com as outras, a solidariedade orgânica pode falhar. Crises comerciais, depressões, discórdia entre mão-de-obra e administração, sublevações civis, tumultos, demonstrações e protestos por subgrupos constituem vários exemplos. Assim, a própria divisão do trabalho que produz harmonia até certo ponto, contém as sementes da desarmonia social se levada além desse certo ponto. Essa, é claro, foi (como Durkheim assinalou) a tese de Augusto Comte. Um tal estado de desarmonia, Durkheim denominou anomia. Esta é uma patologia do organismo social decorrente da divisão do trabalho ficar complicada a um ponto tal que os indivíduos não sejam mais capazes de efetivamente relacionar-se uns com os outros. A diversidade funcional induz uma diversidade moral que nada pode impedir, e é inevitável que uma deva crescer na mesma medida que a outra. Sabemos, ademais, por que esses dois fenômenos evoluem de forma paralela. Sentimentos coletivos ficam cada vez mais importantes para manter unidas as tendências centrífugas que a divisão do trabalho é acusada de gerar, pois tais tendências crescem à medida que a mão-deobra seja mais fracionada, e, ao mesmo tempo, os sentimentos coletivos se enfraqueçam. 17 Em suma, à medida que a sociedade vai ficando cada vez mais complexa — enquanto os membros da sociedade ficam mais preocupados com seus próprios interesses e desenvolvimento — perdem a capacidade 176 os efeitos da comunicação de massa para se identificar e se sentir em comunhão com outros. Acabam se tornando uma coletividade de indivíduos psicologicamente isolados, interagindo uns com os outros mas orientados para dentro, e vinculados entre si sobretudo por laços contratuais.