ALÉM DO ÓBVIO
Não me contenho com as verdades pré-estabelecidas nesse mundo; minha alma chama distante, meu espírito busca na saudade, o portal para casa.
A verdade que carrego, expande-se além do plano material, além da baixa gravidade, além das estrelas que mesmo, distantes, ainda permeiam sua luz fina e elegante na terra.
Somos constelações em outro universo, somos o amor universal, somos o brilho que outrora se esvanecia com o tempo. Na morte te encontro e no vento estou presente; teu choro inocente marca a entrada de uma alma que anseia sua casa; teu choro colhido da respiração e também da chegada do oxigênio, é o marco da tua perca de consciência, e da ressignificação da tua memória, para que tão somente o mundo brilhe ainda mais, seguida na luz da estrela que te guia.
Sou o acaso, e tu és obra do acaso. Em ti, estou, pois, de ti, desenhei todos os traços, enquanto chorava a disposição que teve ao se entregar nesse mundo cruel — que ainda carrega o amor nas entrelinhas — as entrelinhas criadas pelas minhas lágrimas, perante a criação das tuas linhas.
AS 5 LETRAS DO POUCO E MUITO
Quanto mais me distancio, mais vejo a lavagem que me foi posta ao cérebro e as loucuras que me induziram verdades. Se há preço em tudo na vida, há preço também em amar, há preço em falar e há preço também em morrer. Tudo envolve preço e somos meros estrangeiros sem moeda local. Disseram-me, também, que há preço no que escrevo e por isso não acredito em preço, pois apresso-me para escrever sabendo que aos poucos perco o preço. Também não acredito que o amor e a justiça caminhem iguais, pois não lançamos ao fogo quem mais amamos e não deixamos afagados em leite e mel quem por tanto achou-se amada, que impôs ao mundo seu infundado preconceito e que escondeu-se em ruínas depositando seu ódio no outro. Alguns vislumbram o céu azul, alguns enxergam-lhe verde, outros, branco, mas é te olhando céu, que tenho a plena convicção de que permaneces céu e sempre serás céu, pois sendo céu não somos nós que definimos a tua cor. Abrir-se inteiramente é o assopro da verdade. Quando perguntarem por nós, diga que somos aqueles que apresentam visões próprias, acolhendo quem porventura não pôde ver, pois cego foi deixado quando lhe cuspiram os olhos, não para curar, mas para afogar em humilhação as lágrimas que é ser.
GESTAÇÃO
Um dia, a única perspectiva de vida que tive era de viver para sempre envelopado numa bolsa aquosa como um peixe preso em meio ao oceano. Questionava-me constantemente o que haveria de acontecer quando chegasse o dia da partida, se haveria de existir um proceder depois dali e incansavelmente nunca obtive respostas. Nove meses se passaram e o meu espaço nunca havia sido tão reduzido, o ruído externo parecia estar cada vez mais forte, a morte suspirava-me o sangue. Conforme o tempo passava, a certeza da incerteza era cada vez mais latente e, no agir da não esperança, uma luz fina começou a invadir minha escuridão. Não sabia o que estava acontecendo, nem muito menos aonde iria chegar, mas de repente a firmeza de algo dividido em cinco partes me tirou do aperto em que eu estava e, enquanto a luz adentrava a escuridão, minha mãe dava-me a luz deitada sob a maca. Naquele dia, eu descobri que após minha aparente morte existia vida e hoje vivo sabendo que partindo hei de viver numa luz de parto, pois certamente nunca há espera quando existe vida.