A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações.
Frases de Jorge Luis Borges
110 frases
Por vezes à noite há um rosto Que nos olha do fundo de um espelho E a arte deve ser como esse espelho
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Por vezes à noite há um rosto Que nos olha do fundo de um espelho E a arte deve ser como esse espelho Que nos mostra o nosso próprio rosto.
O tempo não existe. É apenas uma convenção.
Para a tarefa do artista, a cegueira não é totalmente negativa, já que pode ser um instrumento.
Nunca releio o que escrevo. Prefiro viver em função do futuro.
Penso que as Palavras essenciais que me expressam se encontram nessas folhas que nem sabem quem sou.
O dever de todas as coisas é ser uma felicidade.
Os Justos Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música.
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Os Justos Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que num café do sul jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez nem lhe agrade. Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de um certo canto. O que acarinha um animal adormecido. O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. O que agradece que na terra haja Stevenson. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
A amizade entre homem e mulher, mesmo que inconscientemente, é sempre um pouco erótica.
Publicamos para não passar a vida a corrigir rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele.
Sob o alpendre o espelho copia somente a lua.
A história universal é a de um só homem.
Sou um homem de letras, nada mais. Não estou certo de ter pensado nada de original em minha vida. Sou um fazedor de sonhos.
Sou Sou o que sabe não ser menos vão Que o vão observador que frente ao mudo
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Sou Sou o que sabe não ser menos vão Que o vão observador que frente ao mudo Vidro do espelho segue o mais agudo Reflexo ou o corpo do irmão. Sou, tácitos amigos, o que sabe Que a única vingança ou o perdão É o esquecimento. Um deus quis dar então Ao ódio humano essa curiosa chave. Sou o que, apesar de tão ilustres modos De errar, não decifrou o labirinto Singular e plural, árduo e distinto, Do tempo, que é de um só e é de todos. Sou o que é ninguém, o que não foi a espada Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Elogio da Sombra A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade.
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Elogio da Sombra A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, voltou a ser La Recoleta, o Retiro, as imprecisas ruas do Once e as precárias casas velhas que ainda chamamos o Sul. Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas; Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar; o tempo foi meu Demócrito. Esta penumbra é lenta e não dói; flui por um manso declive e se parece à eternidade. Meus amigos não têm rosto, as mulheres são aquilo que foram há tantos anos, as esquinas podem ser outras, não há letras nas páginas dos livros. Tudo isso deveria atemorizar-me, mas é um deleite, um retorno. Das gerações dos textos que há na terra só terei lido uns poucos, os que continuo lendo na memória, lendo e transformando. Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte convergem os caminhos que me trouxeram a meu secreto centro. Esses caminhos foram ecos e passos, mulheres, homens, agonias, ressurreições, dias e noites, entressonhos e sonhos, cada ínfimo instante do ontem e dos ontens do mundo, a firme espada do dinamarquês e a lua do persa, os atos dos mortos, o compartilhado amor, as palavras, Emerson e a neve e tantas coisas. Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro, a minha álgebra e minha chave, a meu espelho. Breve saberei quem sou.
As Coisas A bengala, as moedas, o chaveiro, A dócil fechadura, as tardias
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As Coisas A bengala, as moedas, o chaveiro, A dócil fechadura, as tardias Notas que não lerão os poucos dias Que me restam, os naipes e o tabuleiro, Um livro e em suas páginas a desvanecida Violeta, monumento de uma tarde Sem dúvida inesquecível e já esquecida, O rubro espelho ocidental em que arde Uma ilusória aurora. Quantas coisas, Limas, umbrais, atlas, taças, cravos, Servem-nos, como tácitos escravos, Cegas e estranhamente sigilosas! Durarão para além de nosso esquecimento; Nunca saberão que partimos em um momento.
O instante Onde estarão os séculos, o sonho de espadas, o que os tártaros sonharam,
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O instante Onde estarão os séculos, o sonho de espadas, o que os tártaros sonharam, onde os sólidos muros que aplanaram, onde a árvore de Adão e o outro Lenho? O presente está só. Mas a memória erige o tempo. Sucessão e engano, esta é a rotina do relógio. O ano jamais é menos vão que a vã história. Entre a alba e a noite há um abismo de agonias, de luzes, de cuidados; o rosto que se vê nos desgastados e noturnos espelhos não é o mesmo. O hoje fugaz é tênue e é eterno; nem outro Céu nem outro Inferno esperes.
Não há prazer mais complexo que o do pensamento.
Se algo insiste em não estar bom pra você, não insista mais. Pegue seu boné e “on the road”. Sempre haverá outras pessoas, outros lugares, outros trabalhos, outras paixões que parecerão pra vida toda, outros projetos… Melhores, piores ou simplesmente diferentes daqueles aos quais…
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Se algo insiste em não estar bom pra você, não insista mais. Pegue seu boné e “on the road”. Sempre haverá outras pessoas, outros lugares, outros trabalhos, outras paixões que parecerão pra vida toda, outros projetos… Melhores, piores ou simplesmente diferentes daqueles aos quais você se acostumou.
Os meus livros Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto
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Os meus livros Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos E que percorro com a minha mão côncava. Não sem alguma lógica amargura Entendo que as palavras essenciais, As que me exprimem, estarão nessas folhas Que não sabem quem sou, não nas que escrevo. Mais vale assim. As vozes desses mortos Dir-me-ão para sempre.
O livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos.
Antes las distancias eran mayores porque el espacio se mide por el tiempo. Antes as distancias eram maiores porque o espaço se media pelo tempo.
Somos todos semelhantes à imagem que os outros têm de nós.
A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior.