Despi o Teu Sentimento
Na alameda da tua tela
estavam árvores a murmurar.
Entregues ao lampejo das tuas mãos,
deslizando nas tonalidades das estações
da imprescindível paixão.
Despi o teu sentimento: e desnudo fiquei.
Fiel Solidão
Sinto as retinas repletas
de ilustrações vivas,
que pulam na minha carne.
Deslocam-se subitamente
nas minhas veias
ao sabor das visões da memória.
Fiz-me refém
neste ponto de tempo.
Sequestrado pela sombra do silêncio
abandonado por mim,
desvalido e requisitado
pela irreversível circunstância.
Agradeço-te fiel solidão.
Quando todos partiram,
tu nunca me abandonaste.
Mar Ferido de Amor
O refluxo de correntes e marés
em vagas esbatidas pelos ventos.
Nas amplitudes frágeis dos horizontes
cega-se o corpo em espuma de sal
na entrega absoluta do mar ao luar
onde naufragam as almas aos céus.
Remos que remam a distância
em louvor às entranhas do silêncio.
Navegam as sentinelas dos astros
no nevoeiro insípido e rouco:
chora este mar ferido de amor.
Depositando o seu pranto nos areais
e regressa ao mergulho profundo
das suas lágrimas.
Abraço Desarrumado
Aperto a luz da manhã
e encurto as mangas ao silêncio.
Onde estão os meus cadernos
de puída pedra calcária?
Perdi-os num coração estrangulado.
Caminho em compassos arados
aonde vai desmesuradamente
o abraço desarrumado que ficou
nas articulações de um novo dia.
A Boca
Da boca saem múltiplas palavras
discursos vãos: vão-se e já não voltam.
Na boca refreiam-se palavrões
contidos no palato
e livres, aos pulos, no pensamento.
De boca em boca tentam os beijos
empoleirarem-se,
apertados ou indecisos,
a querer nidificar o silêncio
ou o gemido que desfolha a pele.
Antes que a noite comece a salivar
vamos amarrar as nossas bocas
até que os nossos corpos se calem.
Até Que
Com a minha noite sonho-te.
Com o meu dia penso-te.
Com o meu poente verso-te.
Com o meu luar abraço-te.
Com o meu coração amo-te.
Com a minha pele pernoito-te.
Com o Amor respiro-te
até que os oceanos e a Terra
parem de beijar os lábios do Céu.
Sinto-te
Sinto-te nos meus poros,
nas minhas insónias,
nos meus poemas,
nos gritos dos meus silêncios,
nas minhas húmidas palavras,
nos meus lábios, nas minhas veias,
nos meus dedos quando escrevo .
Sinto-te no amor que respiro.
Assassina em Série
Cai a noite.
E tu cais no meu pensamento.
Ergue-se o dia e tu ergues-te
no quotidiano do meu coração.
Tu és a assassina em série
dos meus vazios.