Amo a cumplicidade das roupas velhas usadas no final do dia, e seus íntimos furos e rasgos sobre a pele.
Das pernas cruzadas embaixo das cobertas, um charme feito por duas pessoas.
De respirar o ar temperado em sal, da nuca de quem lhe confia as próprias costas.
Daquele denso hálito matinal, o mofo das bocas caladas pela noite.
No amor, todo sono é desperdício de sonho, pois já o conquistamos nesses breves acordos - acordados.
Tu que acreditas que o tempo é o herói das mágoas vede bem que ele talvez seja o vilão de todas as coisas. Esperas que tudo se resolva e perdes o pouco que deverias tu agarrar. Lembra: Mesmo o relógio, que dele conta as histórias, se desgasta - Ele nada guarda já que tem o infinito para matar.
Aquele que exerce sua função imerso em inflexível hábito, apenas para a sua privativa aclamação, torna seu esforço insalubre; ao não abrigar cada novo ensinamento que lhe seja concedido, é diminuto vassalo de sua soberba, incapaz de submeter-se à mínima reprovação. O calejo das mãos pelo bem de outrem é o fruto doce que, ofertado ao mais comum dos homens ou ao mais oneroso rei, liberta. Não é errado banquetear seus méritos para fortalecer-se em confiança, mas equivocado oferecer migalhas aos famintos esperando aplausos.
Mais pretensioso que acreditar que apenas tuas pernas o levaram de um canto a outro é crer que sem dar um único passo verás o horizonte da chegada - ainda assim, alguém fez calçados para proteger teus pés, construiu estradas para encurtar teus percursos, iluminou as ruas para não diminuíres teus passos; alguém formou teu corpo e te moldou incansável, ensinou-te disciplina para não desistires, ofertou-te obstáculos para que os transpusesse. Não. Não foi apenas tuas pernas que te levaram. Se não tens a quem agradecer onde chegaste, segue calado - antes te admirem pela tua silenciosa força de vontade do que te recriminem por tua ruidosa ingratidão.