O Visitante II Depois que a casa aprendeu, nunca mais abriu a porta
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O Visitante II Depois que a casa aprendeu, nunca mais abriu a porta com as duas mãos. Agora, quem entra já encontra o chão gelado, as luzes apagadas e uma cadeira vazia posta no lugar certo: longe demais para parecer convite. Há pessoas tão monótonas que nem chegam como tempestade. Chegam como poeira. Sentam, falam pouco, prometem nada, mas ainda assim ocupam espaço como móveis velhos em cômodos que já pediam fogo. Eu sempre soube. Só não dizia alto porque há verdades que ficam mais bonitas quando provadas pelo próprio desaparecimento dos outros. No fim, ninguém me surpreende. Apenas confirma. Uns rareiam. Outros somem. Alguns fingem delicadeza enquanto deixam a lâmina em cima da mesa. Mas todos, absolutamente todos, partem do mesmo jeito: fazendo silêncio como se o silêncio não tivesse digitais. Eu vi. Vi quando a presença começou a virar intervalo. Vi quando a palavra perdeu peso. Vi quando o cuidado ficou preguiçoso. Vi quando o “perfeito” já vinha vestido de despedida. E ainda assim, não pedi explicação. Porque pedir clareza a quem vive de sombra é oferecer vela a um túmulo. A casa não corre mais atrás de visitante. Não limpa pegadas. Não guarda copo. Não espera retorno. Deixa a poeira assentar e aprende o nome de cada ausência. Há gente que se acha mistério, mas é só repetição com perfume barato. Há gente que se acha perda, mas era só tempo escorrendo pelo ralo. Há gente que pensa que deixou saudade, quando deixou apenas uma prova: eu estava certo. Sempre estive. E se um dia perguntarem o que aconteceu, direi sem raiva, sem saudade, sem brilho nos olhos: nada. Só mais alguém entrou numa casa que não merecia conhecer e saiu pequeno demais para virar lembrança. Porque, no fim, o que assusta não é perder pessoas. É perceber que algumas nunca tiveram altura para serem chamadas de perda.