Tente você também
Ah, como eu sonhava!
Sonhei, sonhei...
E só. Eu só sonhei
Na hora de realizar: dancei
Não acordava
Não me movimentava
Como iria realizar?
Eis que um dia decidi levantar
Apertei a mão da vida
E percebi que era hora de lutar
Para o sonho virar concreto
Não é que deu certo?
Na pior das hipóteses, a gente aprende
Escrevi mais do que li
Falei mais do que ouvi
Chorei mais do que sorri
Enfrentei mais do que fugi
Despedi mais do que conheci
Me orgulhei mais do que me arrependi
Vivi mais do que me escondi
E se algo não deu certo, pelo menos aprendi
(des)elegante
Não tenho elegância
Sou, talvez, um trapo
Que não vale um fiapo
Não tenho etiqueta
E se tivesse
O valor seria baixo
É, eu não me encaixo
O que tenho de elegante
É a dor que Leminski dizia
E com ela faço obra-prima
O melhor dos cálices:
Vinho tinto de poesia
Aquilo que sinto
Aquilo que sinto
É um dos sentimentos
Mais sentidos
(Não minto!)
Tem “a” na primeira sílaba
Queima por dentro
E pesa no peito
Se verbalizar
Pode até rimar com mar
Mas parece mais um rio
Pois é um sentimento frio
(Até doentio)
Viver e sentir este vazio
Febre
Se fosse uma doença
(Supondo que não seja)
O principal sintoma do amor
Seria a febre:
Aquece por fora
Esfria por dentro
Causa dor
No corpo e de cabeça
Dor que eu aguento
Até me contento
Mas há quem se queime
E quem nem se aqueça
Sopro...
Como um simples sopro
Foste repentinamente
A falta que deixaste
Escorre do rosto
Frequentemente
Ainda estás aqui
Na minha mente
Quando coloco-me a dormir
É que nos vemos
Pois só assim que nos encontraremos
Daqui para frente.
Contato
O que aconteceu com o toque?
Por que refutam o encosto?
Todos tão solitários…
Nenhum sentimento é exposto
Recusam um aperto de mão
Ou mesmo um abraço
Ninguém se toca
Dispensam até as palavras
Bastavam duas: "Bom dia"
Apenas uma bastaria
É claro, não sou extremista
Não precisa me tirar a roupa
Ou fazer uma dissertação
Mas tire-meum sorriso
Ou um poema
Pode ser pequeno
Mas faço-lhe de coração
Quem pode me ouvir?
Sou um muro de lamentações
Algumas pessoas me procuram apenas quando precisam
Outras chegam a dar-me pontapés
Em contrapartida, recebo alguns abraços
Sim, são menos constantes,
Porém, mais valiosos
Não lamento pelo que me acontece de ruim
Mas agradeço pelo que me acontece de bom
Já ganhei mais flores que muitas mulheres
Sim, eu, um muro
Há quem me visite frequentemente
Desses, sou amigo íntimo
Alguns deles, ao se abrirem comigo,
Me agradecem
Pergunta-se por quê?
Eu não faço nada além de estar ali
Mas faço o que nenhuma outra pessoa faz:
Eu estou ali simplesmente para ouvir
Este é o motivo para me abraçar
As pessoas me abraçam
Sim, eu, um muro
Porque não encontram isso em nenhum outro lugar
Beleza natural
Já paraste para ver o mundo?
Como é raso e,
Ao mesmo tempo,
Profundo?
Não, não olhes as desgraças
Esquece os medos e ameaças
Olha a beleza
Da pureza
Da natureza
Já reparaste como o Sol,
O farol em nosso teto,
Brilha no verão?
E como o céu azul é bonito?
Andar cansa, mas faz bem
Amar machuca, mas faz também
O banho lava o corpo
Com água encanada
Mas a água do céu
Pode lavar a alma
Um dia que tinha
Tudo para dar errado
Já deu certo
Pelo simples fato
De ser mais um dia
Cabe a ti decidir
Se vais ver os defeitos
Ou a poesia
Desolado
Caminhei sozinho
Sob a chuva
Não havia mais ninguém
Naquela rua
Enquanto todos a ouviam
De dentro de suas casas
A chuva me tocava
O corpo e a alma
Eu sentia que aquelas gotas
Eram o meu próprio choro
Que caia do meu vazio
Sobre o meu corpo
Frio
Sim, doeu
Se foi fácil?
Não, não foi
Nem deveria ser
Mas tudo passa
Tudo passou
Se doeu?
Sim, doeu
Mas a gente
Se distrai
O tempo nos trai
A vida atrai.
Hemorragia
Queria ser a fumaça do teu cigarro
Para destruir-te por dentro
Como me fizeste
Mas, apesar de tudo, te agradeço
É a hemorragia que me causaste
Que me faz acreditar
Que há sangue em minhas veias
E a dor que me deste
É o único sentimento que me restou
Guardo-a com apreço
Pois só ela me dá a certeza
De que ainda estou vivo
Mas ando procurando outra dor
Pois o amor que eu tinha
Foi-se na hemorragia.
Sustentabilidade
O mundo é insustentável
Produz em grande quantidade
Muito mais do que se come
Grande parte perde a validade
Enquanto muitos passam fome