"O Inventário das Portas Mudas" Sou um currículo escrito em tinta invisível, lançado ao vento de uma cidade de ferro.
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"O Inventário das Portas Mudas" Sou um currículo escrito em tinta invisível, lançado ao vento de uma cidade de ferro. Minhas mãos, prontas para o ofício e o zelo, hoje apenas seguram o vácuo de um desterro. O calendário é um carrasco de folhas secas, onde o "amanhã" se veste de "ontem" outra vez. Bato em portais que não possuem ouvidos, enquanto o estômago conta o que a sorte não fez. A fé é uma vela esquecida na chuva, noventa por cento de sombra e de pavio. O espelho me olha com olhos de estranho: um barco ancorado no leito de um rio vazio. Não sou mais o nome, nem o sonho, nem o plano; sou o cansaço que aprendeu a caminhar. Uma jornada de passos que não saem do canto, sob um céu que desaprendeu a me olhar.