DOS TICS E DAS CHAVES Sendo nós, humanos, seres insatisfeitos por natureza,
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DOS TICS E DAS CHAVES Sendo nós, humanos, seres insatisfeitos por natureza, andamos — por assim dizer — à flor da pele, mas sempre como fechaduras em busca de encontrar sua chave. E qual é a chave? Seria o amor, a compreensão, ou apenas o instante em que nos sentimos completos? Como dizia Fernando Pessoa, por meio de Ricardo Reis: “Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não veem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se.” Será que queremos sair dessa prisão de estar em outro tempo, outro espaço da realidade? Mas o que seria a realidade? A total ausência de nostalgia ou do excesso de esperança? A ausência que esperamos, ou a ânsia do porvir que nunca se cumpre? Seria o relógio a maior preciosidade do homem? Pois todas as dores giram em torno do que já se foi ou do que ainda virá. Diante disso, quanto vale o presente? Quantos amores, quantas poesias são instantes vividos, ou apenas desejos de eternizar o que já passou ou o que ainda não chegou? E ainda assim, como dizia a música de Chico Buarque, “Prefiro então partir a tempo, de poder a gente se desvencilhar da gente... depois de te perder, te encontro, com certeza.” E assim seguimos, à flor da pele, fechaduras que sentem e esperam por chaves invisíveis, sempre em busca de um instante que seja só nosso, ou a vida se revele — prefiro então seguir ao som dos tics e das chaves. Izabela Drumond