Viver verdadeiramente e intensamente não é nada simples. É preciso ter coragem para retirar as máscaras de proteção. Aceitar o óbvio. Encarar as valas, passar pelas pontes, pular a cerca, subir as escadas, atravessar a rua, quebrar as regras sem quebrar conceitos, empinar pipas sem encostar-se aos fios, lavar as janelas sujas para enxergar o dia, pescar cuidadosamente a alegria e empurrar a maldade, dormir pra sonhar e acordar para realizar, sujar os pés na lama e depois lavar, tomar sorvete se lambuzando para aproveitar o sabor, lamber o dedo e virar a página, decorar o texto e improvisar os esquecimentos. Caímos aqui, então o melhor é viver. Pé na tábua e boa sorte.
Queria acreditar que na sexta-feira, no finalzinho do dia terei o descanso merecido, inclusive das torturas dos dias quentes. Acreditar que os batimentos cardíacos não representam a fadada estafa que finjo não existir.
Queria acreditar que o tremor de meu olho direito é presságio de coisas boas e que elas chegarão sempre que eu precisar. Acreditar que sou compatível com a minha coragem e esperança e que nada disso será abalado pelas tempestades.
Queria sim, como eu queria acreditar que o êxtase da alegria será proporcionalmente maior do que o da dor e que um dia após o outro é o que devo viver sem muita pressa.
Queria acreditar que o café quente cura ressaca. Que uma noite de sono afasta todos os males. Que o samba me fará dançar mesmo eu não sabendo nenhum passo. Que o doce de leite de minha avó irá retirar o gosto salgado dos problemas. Que o dia transcorrerá normal. Que as pedras no caminho servirão para algo mais além de machucar o dedão do pé. Que o sorriso breve será apenas a apresentação de próxima gargalhada. Que o afago na cabeça, dado pelo homem grande é um gesto de carinho e não interesse escondido.
Queria acreditar na bolsa de valores. No Papai Noel. No sorriso do palhaço. Na previsão generosa da cigana. No automático bom dia da vizinhança. No boa noite do jornalista da TV. Na esperança dos cientistas. Nas promessas dos políticos. No resultado positivo da loteria. No fim da inflação. Na medicina naturalista.
Queria acreditar que relâmpago não é perigoso. Que a taça cheia não vai embriagar. Que chocolate não engorda. Que o bandido irá deixar o crime porque ele não compensa.
Queria acreditar nos livros de autoajuda. Na beleza do meu cabelo liso. Na minha falha memória. No “vai passar” dito para a tristeza.
Sinceramente eu queria acreditar que quando casar sara. Quando crescer passa. Se comer não engorda. Se perdoar a mágoa vai embora.
Queria acreditar que meu salário dará para todas as despesas. Que eu definitivamente irei aprender os cálculos mais difíceis de Matemática. Queria acreditar na lógica do homem.
Queria acreditar no fim do desafeto. Na insistência da justiça. Na validade do perdão. No término da maldade. Na claridade da verdade. Na ausência da inferioridade. Na cura da saudade.
Queria eu poder acreditar que o afeto será verdadeiro e que a palavra não mais mentirá. Queria acreditar na perpetuação do amor.
"Deus me livre de gente que não entende que a beleza está na essência, que a melhor riqueza é a da alma e que as experiências amadurecem.
Gente que não sabe o valor do abraço que acolhe e da mão que aceita, da música que embala, do colo que serve de descanso. Gente que pensa que as coisas não mudam. Elas mudam continuamente. Gente que usa da vaidade que deturpa, do orgulho que afasta. Precisamos de gente que acredita na fé que fortalece e no amor que abastece, faz rir, distrai, enrosca, toca, cura, salva e tem a chance de ser maior do que a gente pensa. É essa gente que, sutil ou não, faz a diferença."
Se eu fosse rebobinar minha biografia afetiva, certamente encontraria: dois tropeções, uma loucura, três teimosias, uma ilusão, uma desistência, quatro bis, duas besteiras, uma escorregada, algumas covardias e vida longa para o romantismo.Sinto-me honrada pelas oportunidades de ter me danado e com isso aprender que preciso aprender. Andemos.
Sou feita de doçuras, mas também de palavrões.
Sou arruaça, mas preservo um silêncio antipático. Sou afeto e um monte de preguiça para intolerância. Sou atalho para as preocupações e a invenção de planos sem limitações. Sou o amor que quase deu certo e o calor de uma paixão escondida. Sou a tentativa do caminho e as malas prontas para o acaso. No meu sonho, sou a urgência do quase tudo e a insatisfação do quase nada.
Troque a roupa. Mude os sonhos. Acorde cedo. Compre caderno e canetas. Escreva. Desafogue as mágoas. Arrume as gavetas, mas não esqueça de organizar sua cabeça. Gaste tempo incomodando a tristeza. Faça silêncio e escute seu coração. Coma bolinhos de chuva, mesmo fazendo sol. Enxergue desenho nas nuvens. Colha flores para enfeitar a casa. Ouça música para manter a vida. Cante, certo, errado, mas cante a sua canção. Ela é sua expressão no mundo.
Aguarde a sua vez. Espere acontecer. Nada foi feito no primeiro minuto do dia.
Sabote a tristeza. Um coração entristecido não movimenta o afeto.
Escute com o corpo e a alma. Essa é a melhor maneira de importar-se com o outro. Fale devagar e mostre a intimidade do seu pensamento.
Seja inteiro(a) e nesse vai-e-vem da vida espero que não te soneguem o desejo de derrubar os drinques, e com isso, que você tenha a oportunidade de limpar a merda que fez porque não há outra opção a não ser tentar, refazer, arrumar, insistir, prosseguir na segunda dose, segundo porre, terceira tentativa, décima escorregadela.
O pior drama é ter feito o mínimo, errado pouco e vivido metades.
Tente. Tente outro dia. Tente outro corte de cabelo.
Tente outra música. Outro filme. Uma nova sobremesa.
Tente. Outra porta. Uma nova janela. Uma saída estratégica. Um novo passo de dança. Um vestido diferente. Uma palavra mais branda. Uma rua nova. Tente uma voz mais cristalina.
Continue tentando uma loucura diferente. Um abraço mais caloroso. Outra verdade. Outra ideia. Outro plano. Outro caminho. Outro conceito. Outra esquisitice. Outro edredom. Outro charme. Outra intenção. Outro antídoto. Outra dor. Outro amor. E arrependa-se apenas de não ter tentado.
E se você gostasse de mim
e fizesse promessas possíveis
e chegasse sempre à tardinha
e trouxesse fartos abraços
e não tivesse pressa
e abrisse a janela
e se mostrasse para o mundo
E se você fosse de verdade
e bem sincero
e me servisse gentilezas
e tivesse paciência com minhas dúvidas
e esperasse a dor passar
e insistisse em mim
e acompanhasse meu ritmo
e aceitasse meu corpo, minha febre, minha sede e todas as outras coisas
E se você fosse o meu amor de domingo a domingo?
Não ter certezas tornou-se um hábito.
"Sinto muito contrariar, mas o mundo não está precisando de mais poesia. A poesia suficiente existe desde sempre. O mundo está precisando de pessoas mais tolerantes. Umbigos minúsculos. Pessoas que sabem amar gratuitamente. O mundo precisa de pessoas que são de verdade. De existências amorosas. De encontros verdadeiros e desinteressados. O mundo está precisando de menos juízes e mais interlocutores de esperança. De quem finca raízes e colhe flores. De quem quebra algemas e desata nós em nome da fraternidade. Fossem as pessoas mais justas, não precisaríamos de muros que afastam, mas de pontes que aproximam. O mundo precisa de menos culpados em disputas imbecis e mais acertadores em palavras que acolhem. O mundo precisa de gente desacostumada com o frio do distanciamento humano. Se as pessoas fossem mais sábias e menos sabidas, a palavra seria um ato com validade como sopa quente em dias frios."
Eu tive muita vontade de ir bem fundo, cair de quatro e ficar prostrada, esperando você chegar com uma solução infalível, tipo uma mágica onde todas as questões tivessem respostas e o alívio para qualquer queda, fosse imediato. No lugar desse milagre, eu ouvi: levante-se, arrume o cabelo, estufe o peito e corra senão vai perder o último ônibus.