Havia trevas sobre a face do abismo.
Havia abismo sob a face das trevas.
E havia Deus desafiando o caos.
E ali no coração da divindade
já existia tudo o que existe agora.
Lá no céu distante
Uma nuvem se desfaz
Então a chuva cai
E molha meu rosto
E molha meu sapato
E molha até um papel que havia no meu bolso com o número do celular da mulher que conheci ainda pouco, quando o tempo ainda estava bom e a chuva parecia ser algo impossível!
Queria que fosses minha
Que vivesses a cantar junto a mim
Sob o alpendre, no verão,
Pela rua, entre as nuvens,
Ter-te e te amar, amar-te para não te perder.
Tinha um caminho no meio da pedra
Ou uma pedra no meio do caminho
Ou uma foto do Drummond no meio do livro
Sei que meus olhos tropeçaram em algum ponto da página
Eu quisera teu amor
Como nunca quis nenhum
Eu dissera: amo-te tantas vezes
Em meus sonhos ou fora deles
Eu fora teu, somente teu
Agora na mais absoluta solidão
Sou um vaso quebrado
Onde não mais vicejam flores,
Uma alma vazia,
Uma razão desmesurada,
Qualquer fragmento inócuo
De uma vida desatinada.
Dizer-se poeta
Plasmar sentimentos
Temperados com dor
Provocar sentidos alheios
A suspirarem de emoção
- Artífice do vento!
- Homem de ninguém!
Nem a lua retribui teu lirismo
Teu pão é pedra
Tua vida - cinzas
Maldito és na terra
De teu exílio!
Eis que eu fiquei ali parado
à margem do que eu poderia ter sido
cantando as glórias do futuro,
As glórias que jamais chegaram
Que nem se quer me conheceram