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Frases de Hilda Hilst

74 frases

Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo.
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Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses E era como se a água Desejasse...

Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem.
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Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas escomedida Árdua Construtor de ilusões examino-te sôfrega Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer E tu fosses o dia magnânimo Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tenta…
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Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, e desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.

A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas minhas ardências. E transmuta em palavra
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A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas minhas ardências. E transmuta em palavra Paixão e veemência E minha boca se faz fonte de prata Ainda que eu grite à Casa que só existo Para sorver a água da tua boca. A minha Casa, Dionísio, te lamenta E manda que eu te pergunte assim de frente: A uma mulher que canta ensolarada E que é sonora, múltipla, argonauta Por que recusas amor e permanência?

Dez chamamentos ao amigo V Nós dois passamos. E os amigos
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Dez chamamentos ao amigo V Nós dois passamos. E os amigos E toda minha seiva, meu suplício De jamais te ver, teu desamor também Há de passar. Sou apenas poeta E tu, lúcido, fazedor da palavra, Inconsentido, nítido Nós dois passamos porque assim é sempre. E singular e raro este tempo inventivo Circundando a palavra. Trevo escuro Desmemoriado, coincidido e ardente No meu tempo de vida tão maduro

I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba.
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I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.

Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
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Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada Tempo alongado onde te fizeste em viuvez. Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto E a perda é cotidiana e infinita. Porque sabia deste AGORA, Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo Cadela-tempo, tu e eu... que contorno de nada, que coisa ida Nossa dúplice aventura, que... que sim, que sim...

I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba.
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I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. II E só me veja No não merecimento das conquistas. De pé. Nas plataformas, nas escadas VII Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os. Perdi-me tanto em ti Que quando estou contigo não sou vista E quando estás comigo vêem aquela. VIII Aquela que não te pertence por mais queira Saber-se pertencente é ter mais nada. É ter tudo também. É como ter o rio, aquele que deságua Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns. Aquela que não te pertence não tem corpo. Porque corpo é um conceito suposto de matéria E finito. E aquela é luz. E etérea. Pertencente é não ter rosto. É ser amante De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã. Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender. É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE” Que bem me sabe inteira pertencida. IX Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem. Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso. As mós do tempo vão triturando Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas... Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade A esperança.

Três luas, Dionísio, não te vejo. Três luas percorro a Casa, a minha, E entre o pátio e a figueira
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Três luas, Dionísio, não te vejo. Três luas percorro a Casa, a minha, E entre o pátio e a figueira Converso e passeio com meus cães E fingindo altivez digo à minha estrela Essa que é inteira prata, dez mil sóis Sirius pressaga Que Ariana pode estar sozinha Sem Dionísio, sem riqueza ou fama Porque há dentro dela um sol maior: Amor que se alimenta de uma chama Movediça e lunada, mais luzente e alta Quando tu, Dionísio, não estás.

Tenho pedido a Deus, e à lua, ontem Hoje, a cada noite, PERPETUIDADE Desde o instante em que me soube tua.
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Tenho pedido a Deus, e à lua, ontem Hoje, a cada noite, PERPETUIDADE Desde o instante em que me soube tua. E que o luar e o divino perdoassem O meu rosto anterior, rosto-menino Travestido de aroma, despudor contente De sua brevidade em tudo, nos afetos No fingido amor Porque fui tudo isso, bruxa, duende Desengano e desgosto quase sempre. Mais nada pedi a Deus. Mas pedi mais À lua: que tu sofresses tanto quanto eu.

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ventura
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Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ventura Porque é mais vasto o sonho que elabora Há tanto tempo sua própria tessitura. Ama-me. Embora eu te pareça Demasiado intensa. E de aspereza. E transitória se tu me repensas.

Se Te Pertenço Se te pertenço, separo-me de mim. Perco meu passo nos caminhos de terra
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Se Te Pertenço Se te pertenço, separo-me de mim. Perco meu passo nos caminhos de terra E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade. Se te pertenço perco a luz e o nome E a nitidez do olhar de todos os começos: O que me parecia um desenho no eterno Se te pertenço é um acorde ilusório no silêncio. E por isso, por perder o mundo Separo-me de mim. Pelo Absurdo.

Ama-me Aos amantes é lícito a voz desvanecida. Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
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Ama-me Aos amantes é lícito a voz desvanecida. Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido: Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora, Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo Ronda escurecida? Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor Quando tudo anoitece? Antes lamenta Essa teia de seda que a garganta tece. Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem À ponta dos meus dedos, o ouro da volúpia E o encanto glabro das avencas
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Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem À ponta dos meus dedos, o ouro da volúpia E o encanto glabro das avencas De te me vem. De mitos e de águas: Inaudita Extrema, toco-te a boca como quem precisa Sustentar o fogo para a própria vida É úmido de cio, de inocência É a saudade de mim que me condena Extrema, inomeada, toco-me a mim Antes, tão memória E tão jovem agora.

Toma-me Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES
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Toma-me Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia. Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, Um sol de diamante alimentando o ventre, O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo. Te descobres vivo sob um jogo novo. Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor, Antes do muro, antes da terra, devo Devo gritar a minha palavra, uma encantada Ilharga Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.