Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo.
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Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses E era como se a água Desejasse...
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Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo.
Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses E era como se a água Desejasse...
Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas escomedida Árdua Construtor de ilusões examino-te sôfrega Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer E tu fosses o dia magnânimo Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tenta…
Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, e desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.
A vida é crua. Faminta como bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima, olho d'água, bebida. A vida é líquida.
A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas minhas ardências. E transmuta em palavra
A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas minhas ardências. E transmuta em palavra Paixão e veemência E minha boca se faz fonte de prata Ainda que eu grite à Casa que só existo Para sorver a água da tua boca. A minha Casa, Dionísio, te lamenta E manda que eu te pergunte assim de frente: A uma mulher que canta ensolarada E que é sonora, múltipla, argonauta Por que recusas amor e permanência?
Se me proponho ouvir. Vem do Nada. Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos. E sibilante e lisa
Se me proponho ouvir. Vem do Nada. Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos. E sibilante e lisa Se faz paixão, serpente, e nos habita.
Amar É coisa de morrer e de matar... Mas tem som de sorriso.
Dez chamamentos ao amigo V Nós dois passamos. E os amigos
Dez chamamentos ao amigo V Nós dois passamos. E os amigos E toda minha seiva, meu suplício De jamais te ver, teu desamor também Há de passar. Sou apenas poeta E tu, lúcido, fazedor da palavra, Inconsentido, nítido Nós dois passamos porque assim é sempre. E singular e raro este tempo inventivo Circundando a palavra. Trevo escuro Desmemoriado, coincidido e ardente No meu tempo de vida tão maduro
I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba.
I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.
Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada Tempo alongado onde te fizeste em viuvez. Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto E a perda é cotidiana e infinita. Porque sabia deste AGORA, Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo Cadela-tempo, tu e eu... que contorno de nada, que coisa ida Nossa dúplice aventura, que... que sim, que sim...
I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba.
I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. II E só me veja No não merecimento das conquistas. De pé. Nas plataformas, nas escadas VII Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os. Perdi-me tanto em ti Que quando estou contigo não sou vista E quando estás comigo vêem aquela. VIII Aquela que não te pertence por mais queira Saber-se pertencente é ter mais nada. É ter tudo também. É como ter o rio, aquele que deságua Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns. Aquela que não te pertence não tem corpo. Porque corpo é um conceito suposto de matéria E finito. E aquela é luz. E etérea. Pertencente é não ter rosto. É ser amante De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã. Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender. É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE” Que bem me sabe inteira pertencida. IX Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem. Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso. As mós do tempo vão triturando Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas... Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade A esperança.
Três luas, Dionísio, não te vejo. Três luas percorro a Casa, a minha, E entre o pátio e a figueira
Três luas, Dionísio, não te vejo. Três luas percorro a Casa, a minha, E entre o pátio e a figueira Converso e passeio com meus cães E fingindo altivez digo à minha estrela Essa que é inteira prata, dez mil sóis Sirius pressaga Que Ariana pode estar sozinha Sem Dionísio, sem riqueza ou fama Porque há dentro dela um sol maior: Amor que se alimenta de uma chama Movediça e lunada, mais luzente e alta Quando tu, Dionísio, não estás.
Tenho pedido a Deus, e à lua, ontem Hoje, a cada noite, PERPETUIDADE Desde o instante em que me soube tua.
Tenho pedido a Deus, e à lua, ontem Hoje, a cada noite, PERPETUIDADE Desde o instante em que me soube tua. E que o luar e o divino perdoassem O meu rosto anterior, rosto-menino Travestido de aroma, despudor contente De sua brevidade em tudo, nos afetos No fingido amor Porque fui tudo isso, bruxa, duende Desengano e desgosto quase sempre. Mais nada pedi a Deus. Mas pedi mais À lua: que tu sofresses tanto quanto eu.
Ames ou não, ó minha amada Quero-te sempre boa atriz Mentir amor não custa nada
Ames ou não, ó minha amada Quero-te sempre boa atriz Mentir amor não custa nada E custa tanto ser feliz.
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ventura
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ventura Porque é mais vasto o sonho que elabora Há tanto tempo sua própria tessitura. Ama-me. Embora eu te pareça Demasiado intensa. E de aspereza. E transitória se tu me repensas.
Se Te Pertenço Se te pertenço, separo-me de mim. Perco meu passo nos caminhos de terra
Se Te Pertenço Se te pertenço, separo-me de mim. Perco meu passo nos caminhos de terra E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade. Se te pertenço perco a luz e o nome E a nitidez do olhar de todos os começos: O que me parecia um desenho no eterno Se te pertenço é um acorde ilusório no silêncio. E por isso, por perder o mundo Separo-me de mim. Pelo Absurdo.
Que a Aldeia Sol e Lua tem calado essas muitas vivências porque o vosso mundo só aceita o selo da ciência, ainda que a nós nos pareça vossos homens de branco, homens dementados, pensando que só se pensa com a cabeça.
A minha casa é guardiã do meu corpo e protetora de todas minhas ardências.
Ama-me Aos amantes é lícito a voz desvanecida. Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me Aos amantes é lícito a voz desvanecida. Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido: Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora, Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo Ronda escurecida? Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor Quando tudo anoitece? Antes lamenta Essa teia de seda que a garganta tece. Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.
A verdadeira revolução é a santidade.
Há sonhos que devem ser ressonhados, projetos que não podem ser esquecidos...
Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem À ponta dos meus dedos, o ouro da volúpia E o encanto glabro das avencas
Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem À ponta dos meus dedos, o ouro da volúpia E o encanto glabro das avencas De te me vem. De mitos e de águas: Inaudita Extrema, toco-te a boca como quem precisa Sustentar o fogo para a própria vida É úmido de cio, de inocência É a saudade de mim que me condena Extrema, inomeada, toco-me a mim Antes, tão memória E tão jovem agora.
Toma-me Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Toma-me Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia. Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, Um sol de diamante alimentando o ventre, O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo. Te descobres vivo sob um jogo novo. Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor, Antes do muro, antes da terra, devo Devo gritar a minha palavra, uma encantada Ilharga Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
Em consideração a mim, cobri-me de recuos. Eu, que de docilidades me fizera.