Ambidestro
Desnudo minh’alma
devagar, peça a peça
Ninguém sequer nota
Meu escudo é o trauma
de ter vida destra
e alma canhota
Nem tudo me acalma
Nem me interessa
Me aponte uma rota
Iludo a palma
da mão que tem pressa
e a outra boicota
Ao espelho sem pose
Somente reflexo
Imagem reversa
Se a lente der close
Verá quão complexo
é o ser que dispersa
Sob várias camadas
Sob a superfície
Esconde-se o magma
Energias domadas
Um vulcão na planície
Onde o ser não estagna
Meu prazer será
ultrapassar meu dever
Vou extravasar, porque
não há o que esconder
Diário de bordo
Querido diário de bordo
Acabei de embarcar
Que a viagem seja tranquila
Tão serena quanto o mar
Já até me aconcheguei
Vou dormir até o cais
Neste barco sou o rei
Não perturbem minha paz
Querido diário de bordo
Sinto o barco balançar
E por pouco não acordo
Vamos ver onde vai dar
Se for só uma marola
fico quieto em meu canto
Meu timão Deus quem controla
Pra que todo este espanto?
Ouço gritos no convés
Corre-corre pela nau
Da cabeça até os pés
Eu me cubro integral
Deve ser um pesadelo
Logo, logo vai passar
Quer por medo ou desmazelo
Me recuso a aceitar
Querido diário de bordo
Alguém bate à minha porta
Quem sou eu? Já nem recordo
E quem é que se importa?
Ei amigo, por que dorme?
Todos fazem sua prece
A tormenta está enorme
É melhor que se apresse
Por acaso você sabe
a razão desta má sorte?
Tanta água aqui não cabe
Não há barco que suporte
Sou rebelde e infiel
Não devia estar aqui
Do juízo sou o réu
A Deus desobedeci
Não me poupem, por favor
É melhor lançar-me ao mar
Não duvidem, o furor
certamente acalmará
Quero ser um homem honrado
Não descartem a esperança
Depois que eu for lançado
Virá logo a bonança
Ao ouvir meu argumento
tão estranho, tão insano
Sem remorso ou lamento
me lançaram no oceano
O meu corpo cai inerte
e chega ao fundo do abismo
Lanço na morte o meu flerte
Lá se vai meu otimismo
Pelo menos ninguém mais
vai pagar pelo meu ato
Se eu sofrer, sofro em paz
É mais justo e sensato
O que foi que aconteceu?
Onde é que fui parar?
Este cheiro, este breu
No inferno devo estar
Oh Senhor, ouve minha prece
Recebi o que merece
todo que te aborrece
e a tua Lei desobedece
Oh Senhor, ouve minha voz
Eis-me aflito, arrependido
Meu castigo é atroz
Porém, justo e merecido
Quero a chance de seguir
O caminho que traçaste
Que eu alcance no porvir
Tudo o que Tu planejaste
Querido diário de bordo
Uma luz à frente raia
De alegria me transbordo
Vomitado nesta praia
O que foi que me engoliu
Parecia meu castigo
Era a graça que sorriu
e me pôs em seu abrigo
Avalanche
Não repare minha voz estar fanha
Se algo me engasga e embarga
Nem me encare, pois o trauma me acanha
O que era doce me rasga e amarga
Quero expor o que quer que eu tenha
Dar à luz, pois minh’alma está prenha
Sensatez naquele que sonha
cede a vez à dor e a vergonha
Não importa o que se proponha
Travesseiro perdeu sua fronha
Se quer me encontrar, então venha
Se vai me acessar, eis a senha
Mas para conter a avalanche
O perdão em vez da revanche
Se custou pra montar, não desmanche
Se já está limpo, não manche
Perdoe-me se te insulto
Se exponho o que estava oculto
Do que vale se tudo te estranha
Se nem tua superfície arranha
Só há cura se a ferida é exposta
Se o amor for além da aposta
Jogo da vida
A banca está aberta
para quem quer apostar
Se falha ou acerta
só sabe quem pagar
O futuro está em jogo
roletas a girar
Depois de aceso o fogo
quem pode apagar?
Os dados viciados
garantem a ilusão
os mesmos resultados
eis a conspiração!
Rebeldes contra o mal
Que rompem com o jogo desleal
Vamos nos rebelar
e toda injustiça denunciar
Prudência não faz mal
Quem vence é quem luta até o final
Não é questão de sorte
nem jogo de azar
Nem sempre é o forte
que entra pra ganhar
Se a regra agora é esta
as fichas vou lançar
O que me espera é festa
O futuro certo está
Desejo que nossos sonhos de consumo não nos consumam! Que nosso amor ao poder não nos torne insensíveis ao poder do amor. Que aprendamos a dar valor às pequenas coisas que verdadeiramente dão sentido à vida, e nos desapeguemos daquelas que insistem em nos convencer de que são essenciais
Nele, a existência é redimensionada. Pontos absurdamente desconexos são ligados. Peças soltas se encaixam. Ao desprezível se atribui valor. Ao excluído se reserva assento entre os príncipes e por eles é servido. O assimétrico se harmoniza. A dissonante encontra seu lugar na grande sinfonia da vida. O fugaz se eterniza. A vida reencontra seu sentido original.
Haja o que houver, faça o bem. Se fizer movido por culpa, sua consciência o absolverá. Se fizer por constrangimento, certamente poupará sua imagem do desgaste público. Se fizer para se promover, os holofotes lhe acharão. Se fizer por medo, sentirá alívio em sua alma. Mas se fizer por amor, você experimentará a maior de todas as alegrias. A absolvição da consciência só dura até o próximo pecado. Sua imagem só será poupada até o próximo escândalo. Seus medos eventualmente voltarão a lhe assombrar. Mas a alegria proporcionada pelo amor durará para sempre.
A miséria que a sociedade prefere varrer para debaixo do tapete nada mais é do que os efeitos colaterais de uma sociedade consumista, hedonista e egoísta ao extremo. Não basta sacudir o tapete, fazer a faxina. Temos que rever nosso estilo de vida e aprender a compartilhar em vez de concentrar e desperdiçar.