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Frases de Guilherme de Almeida

28 frases

Indiferença Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
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Indiferença Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto, pudéssemos varrer nosso passado. Passo esquecido de te olhar, coitado! Vais, coitada, esquecida de que existo. Como se nunca me tivesses visto, como se eu sempre não te houvesse amado Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos, se quando passo, teu olhar me alcança se meus olhos te alcançam quando vais. Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos. Volta-nos sempre a pálida lembrança. Daqueles tempos que não voltam mais!

Um sábio me dizia: esta existência, não vale a angústia de viver. A ciência, se fôssemos eternos, num transporte
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Um sábio me dizia: esta existência, não vale a angústia de viver. A ciência, se fôssemos eternos, num transporte de desespero inventaria a morte. Uma célula orgânica aparece no infinito do tempo. E vibra e cresce e se desdobra e estala num segundo. Homem, eis o que somos neste mundo. Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver dentro da própria morte, o encanto de morrer. Um monge me dizia: ó mocidade, és relâmpago ao pé da eternidade! Pensa: o tempo anda sempre e não repousa; esta vida não vale grande coisa. Uma mulher que chora, um berço a um canto; o riso, às vezes, quase sempre, um pranto. Depois o mundo, a luta que intimida, quadro círios acesos : eis a vida Isto me disse o monge e eu continuei a ver dentro da própria morte, o encanto de morrer. Um pobre me dizia: para o pobre a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre. Deus, eu não creio nesta fantasia. Deus me deu fome e sede a cada dia mas nunca me deu pão, nem me deu água. Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa de andar de porta em porta, esfarrapado. Deu-me esta vida: um pão envenenado. Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver, dentro da própria morte, o encanto de morrer. Uma mulher me disse: vem comigo! Fecha os olhos e sonha, meu amigo. Sonha um lar, uma doce companheira que queiras muito e que também te queira. No telhado, um penacho de fumaça. Cortinas muito brancas na vidraça Um canário que canta na gaiola. Que linda a vida lá por dentro rola! Pela primeira vez eu comecei a ver, dentro da própria vida, o encanto de viver.

CIGARRA Diamante. Vidraça. Arisca, áspera asa risca
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CIGARRA Diamante. Vidraça. Arisca, áspera asa risca o ar. E brilha. E passa. CHUVA DE PRIMAVERA Vê como se atraem nos fios os pingos frios! E juntam-se. E caem. OUTUBRO Cessou o aguaceiro. Há bolhas novas nas folhas do velho salgueiro. O HAIKAI Lava, escorre, agita A areia. E, enfim, na bateia Fica uma pepita. NOTURNO Na cidade, a lua: a jóia branca que bóia na lama da rua. HORA DE TER SAUDADE Houve aquele tempo... (E agora, que a chuva chora, ouve aquele tempo!) OS ANDAIMES Na gaiola cheia (pedreiros e carpinteiros) o dia gorjeia. QUIRIRI Calor. Nos tapetes tranqüilos da noite, os grilos fincam alfinetes.

ESSA,QUE EU HEI DE AMAR... Essa,que eu hei de amar perdidamente um dia, Será tão loura,e vagarosa,e bela,
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ESSA,QUE EU HEI DE AMAR... Essa,que eu hei de amar perdidamente um dia, Será tão loura,e vagarosa,e bela, que eu pensarei que é o sol que vem,pela janela, trazer luz e calor a esta alma escura e fria. E,quando ela passar,tudo o que eu não sentia da vida há de acordar no coração que vela... E ela irá como o sol,e eu irei atrás dela como sombra feliz...-- Tudo isso eu me dizia, quando alguém me chamou.Olhei:um volto louro, e claro,e vagaroso,e belo,na luz de ouro do poente,me dizia adeus,como um sol triste... E falou-me de longe:´´Eu passei a teu lado, mas ias tão perdido em teu sonho dourado, meu pobre sonhador,que nem sequer me viste!``

Soneto XXXVIII Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada,
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Soneto XXXVIII Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada, eu saía a brincar, pela calçada, nos meus tempos felizes de menino. Fazia, de papel, toda uma armada, e estendendo meu braço pequenino, eu soltava os barquinhos, sem destino. ao longo das sarjetas, na enxurrada... Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles, que não são barcos de ouro os meus ideais: são de papel, são como aqueles, perfeitamente, exatamente iguais... _Que meus barquinhos, lá se foram eles! Foram-se embora e não voltaram mais!

Quando as folhas caírem nos caminhos, ao sentimentalismo do sol poente, nós dois iremos vagarosamente,
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Quando as folhas caírem nos caminhos, ao sentimentalismo do sol poente, nós dois iremos vagarosamente, de braços dados, como dois velhinhos… E que dirá de nós toda essa gente, quando passarmos mudos e juntinhos? - "Como se amaram esses coitadinhos! Como ela vai, como ele vai contente!" E por onde eu passar e tu passares, hão de seguir-nos todos os olhares e debruçar-se as flores nos barrancos… E por nós, na tristeza do sol posto, hão de falar as rugas do meu rosto… Hão de falar os teus cabelos brancos…