O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso.
Frases de Fernando Pessoa
953 frases
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
...havia um tédio das emoções, diferente do tédio da vida, uma impaciência de me ligar a qualquer sentimento contínuo, sobretudo quando houvesse de se lhe atrelar um esforço prosseguido.
Não é por nada que olho: é que eu gosto de ver as pessoas sendo.
Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os fatos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma.
Nada se sabe, tudo se imagina.
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho.
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Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei.
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida. Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com…
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Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida. Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Quem tem dois corações Me faça presente de um Que eu já fui dono de dois
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Quem tem dois corações Me faça presente de um Que eu já fui dono de dois E já não tenho nenhum Dá-me beijos, dá-me tantos Que enleado em teus encantos Preso nos abraços teus Eu não sinta a própria vida Nem minh’alma ave perdida No azul amor dos teus céus Botão de rosa menina Carinhosa, pequenina Corpinho de tentação Vem morar na minha vida Dá em ti terna guarida Ao meu pobre coração Quando passo um dia inteiro Sem ver o meu amorzinho Cobre-me um frio de janeiro No junho do meu carinho.
Tive grandes ambições e sonhos dilatados – mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir conosco.
Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, po…
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Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.
Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse.
O ANDAIME O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida!
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O ANDAIME O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah, quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado! Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Este seu correr vazio Figura, anônimo e frio, A vida vivida em vão. A 'sp'rança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobre mais que minha 's'prança, Rola mais que o meu desejo. Ondas do rio, tão leves Que não sois ondas sequer, Horas, dias, anos, breves Passam - verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer. Gastei tudo que não tinha. Sou mais velho do que sou. A ilusão, que me mantinha, Só no palco era rainha: Despiu-se, e o reino acabou. Leve som das águas lentas, Gulosas da margem ida, Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos o sonho e a vida! Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido. Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser, Leva não só lembranças - Mortas, porque hão de morrer. Sou já o morto futuro. Só um sonho me liga a mim - O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser - muro Do meu deserto jardim. Ondas passadas, levai-me Para o alvido do mar! Ao que não serei legai-me, Que cerquei com um andaime A casa por fabricar. Fernando Pessoa
Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro, Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
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Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro, Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. Eu reinei no que nunca fui.
Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias
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Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles. Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida. Aos que a felicidade É sol, virá a noite. Mas ao que nada espera Tudo que vem é grato.
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos. . . Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma.. . Não tínhamos
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E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos. . . Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma.. . Não tínhamos vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo de uma palmeira. Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizar-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos. . . E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser. . . Zumbe uma mosca, incerta e mínima. . . Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fingindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza soçobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece. . . A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora. . . Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos.. . Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta, e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera. Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é. Não choremos, não odiemos, não desejemos. . . Cubramos, ó silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto da nossa Imperfeição. . .
Que pensará isto daquilo? Nada pensa nada Terá a terra consciência das pedras e plantas
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Que pensará isto daquilo? Nada pensa nada Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem? Se ela a tiver que a tenha... Que me importa isso? Se eu pensasse nessas coisas deixaria de ver as árvores e as plantas E deixaria de ver a Terra para ver só os meus pensamentos... Entristecia e ficava às escuras E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu
Não sei o que é isto, mas é o que sinto. . . Preciso dizer frases confusas, um pouco longas, que custem a dizer. . . Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a
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Não sei o que é isto, mas é o que sinto. . . Preciso dizer frases confusas, um pouco longas, que custem a dizer. . . Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? SEGUNDA. - Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente. . . Quem é que eu estou sendo? . . . Quem é que está falando com a minha voz?. . . Ah. escutai. ..
Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta.
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Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta. Não é o que estou chorando. O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, A nuvem flutua calma. E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece, Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade. Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem. Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem. Fernando Pessoa, 29-3-1931
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!... A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor. . . Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos
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Loucura de sonho naquele silêncio alheio!... A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor. . . Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós. . . E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade. . . Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer. . . Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria. . . E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera. . . Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo- nos a querer soluçar. . . Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero de ser. . . Cheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto. . .
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo- nos. como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos. . .
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A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo- nos. como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos. . . Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara- se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma cousa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às cousas que existem?. . . Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais. . . Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena. . .