O Vício Tenho um vício, como qualquer um tem.
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O Vício Tenho um vício, como qualquer um tem. Mas este é especial, por ser diferente dos demais. É um vício que exige imaginação, que pede dor, sofrimento, pensamento. Pensar num futuro sem ela. Um vício que me rouba vida como qualquer droga, e que eu odeio por não conseguir controlar. É um vai-e-vem espacial: quando volta, a minha dopamina cresce. Passo de daltónico a normal, de velho à flor da idade. Quando parte para o espaço, o mundo fica a preto e branco. Uma escuridão que me tapa o cérebro, onde as ideias claras dão lugar ao sombrio e ao melancólico. O mundo fecha-se num monte de betão cinzento. Escondo-me lá até o foguetão regressar. É um ciclo que deixa de ser vício e passa a ser vida, rotina. Este vício só acaba se eu lhe falar, se lhe disser o quão aconchegante é o seu foguetão, o quanto gostava de passar lá dentro tempo. Mas falar disso é complicado. Astronauta não sou, e sem o ser não se pode ficar no espaço. Ainda assim, este simples agricultor vai desafiar leis, vai tentar entrar no foguetão e lá ficar. Para acabar com o ciclo, com este vício incontrolável, como a apoptose das minhas células. Tenho de a desafiar para terminar o meu sofrimento: a dúvida, a necessidade de saber se aquele majestoso foguetão me deixaria passar o resto da eternidade nele.