-Tudo bem... Vou fingir que acredito quando
me engana tão descaradamente.
-Ótimo, faça isso... Posso fazer uma pergunta?
-Todas.
-Queria perguntar desde o ano passado.
-Fale.
-Já consegue ler meus olhos?
Cálice: utensílio utilizado para beber líquido.
Neste caso é algo mais, não é um líquido,
não é material, não é concreto, é algo sentido,
um cálice de sentimento, um cálice de
sonhos.
Bonita. –disse observando a minha
blusa com a manga caída no ombro.
Agradeci e lembrei vagamente do que me
disse na páscoa.
-Mandei um e-mail dizendo que não viria.
-Eu li.
-Então por que me esperou?
-Eu sabia que você viria.
-Como sabia?
-Já te conheço.
-Porque você é você! Quero saber o que se
passa em sua cabeça e se quiser ouvir, compartilhar
o que tenho na minha também.
-Então diga o que se passa em sua cabeça
exatamente agora.
-Que eu sou louco...
-Sim, concordo com isso.
-Mas nem tão louco assim a ponto de dizer.
Flowers are a synonym of happiness and sadness.
A concrete paradox
A happiness in beauty.
A trauma caused by murderous colors.
Cries, memories, wounds…
A beautiful thing
Beautiful things.
An incomparable natural beauty.
Unmistakable.
And they wither.
Die off.
And we realized that they are merely flowers.
O suspiro se misturou, aquele medo antigo fez cócegas em algum lugar do lado de dentro, medo de perder, de não poder, de separar, de se perder...
-Para! –disse ela em tom repreensivo.
-O que eu fiz?
-Pensou.
Sem entender ele deu de ombros.
-É inevitável.
Ela sorriu, aquele doce sorriso o amoleceu e todos os pensamentos e medos sumiram de sua mente.
-É exatamente como eu imaginava. –disse ele- Você não mudou nada.
...Que se fizesse calado seus olhos me observarem
Eu não teria censurado onde olhavas.
Se não forçasse o que tanto querias em silêncio
Eu o teria feito muito antes de você ousar.
Se tivesse guardado segredo de suas vontades
Eu as realizaria como em sonhos.
E quando decidir que desistiria de me amar e
desejar-me
Eu o amaria e desejaria novamente!...
Apenas uma frase martelou em minha mente.
-Posso conquistar seu coração?
Dei um sorrisinho torto e continuei olhando
pra baixo, não sei como ele conseguiu me fazer
esquecer o deboche, ele insistiu:
-Responda olhando em meus olhos. -Eu olhei
e ele repetiu a pergunta - Posso conquistar
seu coração?
Relutante, respondi:
-Difícil...
-Se fosse fácil... Não era para mim.
Não sei por que, meu medo era se ele conseguisse
-...Serviu de lição para mim e para você, para
ver como as coisas fugiram do nosso controle.
Você confiava tanto em mim, você não pode
confiar tanto assim em mim, nem em nenhum
outro homem- ênfase em "nenhum outro"-
digo isso porque quero te proteger, porque eu
gosto de você.
-Então, faça um favor: goste menos de mim.
Fechei os olhos, saboreando a nostalgia das belas e más lembranças. Uma lágrima rolou por meu rosto, inevitável, borrando levemente minha maquiagem suave. Senti como se o vento gélido me abraçasse, me confortando em seu colo sombrio. Deixei o ar escapar de meus pulmões levemente. Ouvi o barulho cessar. Estava estacionado ali, me observando, esperando.
-Sabe o que é mais interessante?
-O que?
Desceu os olhos para fitar os seus.
-Vai amanhecer. Você vai para aquele lado –disse apontando- e eu para aquele.
-E depois?
-E depois nunca mais nos veremos de novo.
-Quanto tempo é nunca mais? –perguntou ele curioso -Um dia?
-Talvez cinco ou dez.
-Talvez menos.
-Talvez menos que dez.
-Talvez menos –insistiu.
E então, como quem vive muito e os anos pesam quase leves demais, num bater de asas de uma borboleta mais breve que um piscar de olhos mortos, você nem vai se lembrar... ou fingir que esqueceu.
A alegria e coisas boas se renovam. Tristezas se inventam de medos dos mesmos motivos.
Não vou perguntar do sentimento superficial
O que interessa é a essência deste sentir
E se está tudo bem, mesmo que não
demonstre a ninguém,
então acredito no que diz
A indiferença de olhares incertos
é presente no instante
deslocado em que te digo
Que para mim é o suficiente
Estar contigo
-Noite equivale ao tempo. Tempo de partir. Deixar a existência.
-Por isso você não consegue dormir? Com medo de o tempo acabar?
Ele se calou. Talvez tenha respondido mentalmente, ou estava formulando bem o que disse:
-O sono é o apagar da realidade, o sonho o início de tudo que está oculto.