o conhecimento de si só se dá em confronto com o mundo e ele é quem molda até aqueles nossos valores mais irredutíveis. Somos todos forjados conforme aqueles retratos feitos em câmara obscura, que se completam unicamente com a captação da luz exterior.
Frases de Erico Verissmo - Clarissa
4 frases
Era numa casa grande. O arvoredo que a cercava amanhecia sempre cheio de cantos de pássaros. O mundo não terminava ali no fim daquela rua quieta, que tinha um cego que tocava concertina, um cachorro sem dono que se refestelava ao sol, um português que pelas tardinhas se sentava à…
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Era numa casa grande. O arvoredo que a cercava amanhecia sempre cheio de cantos de pássaros. O mundo não terminava ali no fim daquela rua quieta, que tinha um cego que tocava concertina, um cachorro sem dono que se refestelava ao sol, um português que pelas tardinhas se sentava à frente de sua casa e desejava boa tarde a toda gente. Não. O mundo ia além. Além dos horizontes havia mais terras, e campos, e montanhas, e cidades, e rios e mares sem fim. Dava na gente vontade de correr o mundo.andar nos trens que atravessam as terras, nos vapores que cortam os mares. Andar... Nos olhos do menino havia uma saudade impossível, a saudade de uma terra nunca vista. Um dia - quem sabe? -, um dia um vento bom ou mau passa e leva a gente. Um dia... (...)Um dia veio um vento - bom ou mau? - e levou para longe o menino que queria viajar. Ficou para trás a cidade pequenina com todas as suas coisas bonitas e queridas."
Só agora Amaro percebe que nem tocou nos talheres. Balbucia desculpas. Estava esquecido até do almoço. Sempre o velho vício. Sonhando, devanenado, enquanto os outros conversam, gesticulam, vivem de verdade. É por isso que não há de passar nunca de simples funcionário de banco. A…
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Só agora Amaro percebe que nem tocou nos talheres. Balbucia desculpas. Estava esquecido até do almoço. Sempre o velho vício. Sonhando, devanenado, enquanto os outros conversam, gesticulam, vivem de verdade. É por isso que não há de passar nunca de simples funcionário de banco. A música não lhe dá dinheiro. (...) E assim vivia ele dentro do sonho, alheio ao mundo objetivo. Perdia aquilo que os homens práticos chamam oportunidade. Cumpria o seu destino obscuro, de contemplativo."
O olhar morto passeia em torno, vê as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mármore da mesinha-de-cabeceira, a escrivaninha com papéis em desordem; nas paredes brancas, a máscara mortuária de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espe…
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O olhar morto passeia em torno, vê as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mármore da mesinha-de-cabeceira, a escrivaninha com papéis em desordem; nas paredes brancas, a máscara mortuária de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espelho que rebrilha, refletindo na superfície lisa o semblante dum homem triste...