Eu queria saber aonde é Longe
lugar tão simples, ignorado
e que tanta coisa abrange
a gente sempre ouve falar
de tanta gente que está lá
que veio de lá
ou que está pra chegar
e vem vindo de lá
eu às vezes chego a pensar
que longe é aqui
Longe dos sonhos
longe das soluções
longe de quem me entenda
longe de quem goste
de mim de verdade
eu esperava no passado
por um dia que estava longe
esperava sem perceber
que a cada dia que passava
eu ficava cada vez mais longe
Longe de quem me amava
longe de quem me queria
longe de quem
junto comigo sonharia
eu queria ir pra bem longe
mas esse lugar está
muito distante
no tempo e no espaço
e agora não sei o quê faço
já que tudo agora
está tão longe
De repente você percebe
que algo mudou em você
mas não sabe dizer o que é
depois de dois dias iguais
no terceiro você não é mais
aquele que costumava
crer ou deixar de ter fé
gostar ou não de alguém
ter medo ou não ter
do escuro
do futuro
da vida
ontem você não aceitava
a chegada do Homem à Lua
a existência do invisível
ideias que não fossem suas
nem mesmo a invenção da roda
difícil aceitar a teoria
de que a ciência sabia dizer
a composição de Saturno
como crer na espectroscopia?
mais difícil ainda era crer
na sinceridade das crianças
outras vidas e suas lembranças
no amor de desconhecidos
o que foi que mudou você?
aquela folha que caiu
alguma esperança perdida
um folheto que leu na rua
um pássaro que cantou
aquele amigo que partiu e te deixou
de repente você percebe
que os pássaros cantavam
e você não ouvia
as folhas caem
e as esperanças se perdem
tudo muda e você não mudava
mas queria mudar o Mundo
três dias se passaram
a vida muda num segundo
e você não enxergava
E então cheguei aqui...
eu sei, não parece muito
mesmo assim, não compreendo
como foi que consegui
Quando tudo começou
isso, há muito tempo atrás
despojado de qualquer recurso
sem saber no que pensar
ou em quê sentir
fui seguindo
o tropel da cavalgada
muitas vezes ao fim
da viagem que
me conduziria a mim
percebia que não havia
de maneira nenhuma
aprendido ou ensinado nada
a vida soava onírica
e sem ter quem me ensinar
optei por procurar
o lado lírico do viver
hoje em dia
olhando o caminho percorrido
não me lamento
e muito menos me arrependo
de não ter acumulado
não haveria onde guardar
portanto, fui dividindo
que quem estivesse ao meu lado
irmão, amigo ou desconhecido
vivendo o Sol de cada dia
um dia de cada vez
o otimismo se fez escola
entrei em lagos
chutei bola
e tentando, então
compreendi
que nunca aprenderia a nadar
futebol, então...nem pensar
mas olhando hoje a vida, penso
que o empirismo me deu o bom senso
de saber que nunca haveremos
de chegar a nenhum consenso
e, apesar de tantos tropeços
que houve desde o começo
eu ainda estou aqui
e assim vou permanecendo
pois não tenho pra onde ir
às vezes passam-me pela mente
pensamentos leves como pluma
e tão inconsistentes
quanto espuma de sabão
desejos tão pequenos
que caberiam na palma da mão
dos grandes planos e grandes projetos
desisti quando percebi
que talvez pudessem dar certo
tive medo do meu egoísmo
ao observar alheios egocentrismos
troquei a possibilidade
de sucumbir à vaidade
e ser alguém que aparentasse
ter mente de propriedade
e que na verdade
fosse apenas um ser abjeto
portanto, optei por ter apenas
aquilo que pudesse carregar
e conviver com pessoas
que fizessem as perguntas
que eu soubesse responder
optei por caminhar
pelos caminhos aonde
não tivesse precisão de me esconder;
e escolhi estradas pedregosas
as pedras são menos perigosas
que o veneno que porventura
pudesse brotar no coração
esta vida é muito breve, não vale à pena
tudo que tenho no mundo
é aquilo que se escreve
quem sabe eu agindo assim
um dia a terra me seja leve.
Existe uma pergunta sem resposta
Que talvez tenha existido
Antes que existisse vida
Uma dúvida tão imensa
Insistentemente intensa
Que fez com que a Humanidade
Escavasse montanhas
Atravessasse Oceanos
Enchesse a Terra de dor
E em busca desta resposta
Um dia precisaremos
Abandonar este mundo
Pois aqui procuramos bem fundo
Mergulhamos nos livros
Que os antigos escreveram
Recheados de mais perguntas
Com os olhos voltados pro infinito
Catalogamos Estrelas e Astros
Criamos submarinos e mastros
Canoas e naves espaciais
Nos perguntando cada vez mais
Descongelamos os Pólos
E no ventre da Terra deixamos
Imensas feridas expostas
Enchemos o Mundo de dor
Em busca dessa resposta
O que vêm a ser o Amor?
Aconselho-te muita cautela
quando avistares no horizonte
aquela nau de formas belas
que há de chegar para colonizar
a tua alma singela
se a expedição for de ocupação
haverá de habitar no seu coração
fixando residência
porém, te aconselho prudência
pois se for de exploração
ouvirás mais "sim" do que "não"
e ao final de um primeiro momento
haverás de conhecer o sofrimento
começando por perder
a capacidade de confiar
na própria existência do amor
haverás de sentir muita dor
ao sentir seu coração despedaçado
colocaste a mão no vespeiro
por amor
que não era verdadeiro
destruindo tua alma singela
mas ele há de chegar
qual dos dois ele será?
não terás como saber
Portanto, aconselho cautela
pois não há como dizer
que não andes pela praia
com os olhos no horizonte
a aguardar um dia a chegada
daquele vulto que poderá ser tudo
ou te transformar em nada
O dia nasceu e eu olho pra ele
O Sol à brilhar, pássaros voando
Crianças sorrindo
Mas o Mundo não é mais aquele
Algo nele se perdeu
Eu juro que tento
Confesso que estou atento
Ouvindo as palavras que diz-me o vento
Não vejo a mesma alegria
Que eu via em outros tempos
Nem consigo esboçar o sorriso
Que sorri em momentos passados
Parece que tudo ficou no caminho
em dado momento
E hoje aqui
Eu choro sozinho
Escondendo meu rosto
Ninguém percebe
E Assim prossegue o dia
Sem mostrar o brilho que havia
Vejo alegria em outras caras
E sigo vivendo
Este Mundo não pára
Escrevo uma triste poesia
Em menos de um minuto
Enxergo e sou surdo
Porque
Se ainda me fala a alegria
Não escuto.
Vida efêmera
Vivida longe de tudo
e sem acesso a um escudo
Que pudesse me afastar
Das passagens frívolas
Que gostaria de não ter vivido
Vida hilária
Na qual não passei de pária
Observando à distância
e descobrindo
Que sendo este mundo uma esfera
O menor caminho
Quase nunca é reto
Porém a trajetória
É muitas vezes temerária
Poucas vezes concreta
e quase sempre
Na direção contrária
Em uma estrada muito fria
Em companhia
De mim mesmo
Ensimesmado
E muita coisa ainda falta
Pouca coisa resta
Na parte que ainda
Não foi vivida
A estrada que percorri
Foi simplesmente
Sinuosa e descabida
Eu vejo gente arvorada
Em impérios imaginários
Apoiando os pés no nada
Quando este rio houver
Finalmente desaguado
No inexorável Oceano de verdades
Infinitamente capaz
De apagar a pira
do todas as vaidades
Pouca coisa emergirá
Além da ira
Incapaz de qualquer vingança
À luz da alva verdade
Que há de tornar toda gente muda
de forma aguda e incisiva
A finalmente perceber
Que a vida era passageira
Eu vi a luz que se apagou
Eu vi a morte flutuar no espaço
Algo ali surpreendeu
E fez com que de repente
Eu pensasse não ser eu
Eu vi o homem que galgava
Cada degrau daquela escada
A caminhar pro cadafalso
E cada passo dado em falso
Era uma aproximação verdadeira
Do seu derradeiro laço
Eu ouvia todos os hinos
Louvando e glorificando
A condenação simples e pura
de todos os juízes
Traídos, em suas sentenças
Atrelados e atados
Às duras barras, onde amarraram
Lado a lado
No lodo dos tribunais
Com sua justiça de barro
Eu vi a cara da fome
e suas irmãs, felizes
Eu vi sete celeiros cheios
Para alimentar sete juízes
Eu vi caírem
Todos os governos deste Mundo
Num lapso de tempo
Que não durou
Mais que um segundo
Certas palavras
Algumas visões
Muitas coisas
Das quais eu pouco entendo
Em determinadas situações
Tem me feito muito mal
Sendo a Humanidade uma só
Mesmo assim
Nem todo mundo é igual
E as coisas que a gente vê
Fazem saber
Que conhecimento é armadilha
E quem julga possuir
O conhecimento como um todo
Está fadado a grande engodo
Em muitos casos
O ardil mais preciso
Se esconde num simples sorriso
A mentira mais sem noção
Muita gente usa quando diz
Que traz você no coração
São coisas que a gente escuta
de gente pra lá de astuta
Que traz grandes inverdades
Em algo chamado amizade
Faltam muitos sentimentos
Que sejam
Realmente nobres
Como em qualquer regra de três
As grandezas não variam da mesma forma
Mas de minha parte não são
E nunca serão
Inversamente proporcionais
Muita gente acha normal
Mas a mim faz muito mal.
Cansei de gente ingrata
Que enxerga somente na gente
O brilho da prata
Quando brilha
Entrega a alma ao demônio
Em troca de algum trocado
Vou deixar de lado
Essa gente que não se preza
Pra quem
A gente vale o quanto pesa
Aquilo que eu quero
É o que pouca gente espera
A mais sincera amizade
Por muito pouco vocifera
Se for pra conviver com feras
Eu prefiro as de verdade
Em vez daquelas
Que não me devoram
Por mera formalidade
Hoje em dia não posso mais
Correr como eu corria
Se eu tentasse
Tenho certeza
Que com o tempo
Recuperaria o meu fôlego
Perderia esse jeito
Trôpego de agora
Não vejo razão pra isso
Não há mais com quem correr
Aqueles amigos partiram
Os meninos que corriam
Se foram todos embora
Não saem mais para brincar
Parece que me esqueceram
Inventaram uma brincadeira
de esconder
Em que a gente procura
E não encontra
Entraram num túnel
de onde ninguém sai
depois que entra
E eu fiquei aqui
Sentado à sombra da saudade
Privado da liberdade
de rir como a gente ria
E a cada amigo que partia
Uma parte da minha vida
Consigo eles levaram
Ou será que ainda estão lá
Esses pedaços?
Em cima de árvores que cortaram
Ruas de terra que asfaltaram
Bicicletas que enferrujaram
Nos planos que a gente fez
e eles não viveram
Pra cumprir
Foram viver em outros mundos
Outros planos, outros níveis
Às vezes eu os sinto aqui
Ninguém vê, só eu os vi
Pois hoje eles são apenas
Meus amigos invisíveis.
Sandra
Outro dia eu sonhei
Com uma casa que a gente morava
Onde você, desde pequena
Acordava, fazia sorrir e sorria
Mas sempre havia um dia
Em que você estava brava
Eu ria, chamava a Patrícia
E a gente brincava
Outro dia eu passei lá em frente
A alegria se foi
Nem vale mais à pena passar lá
Os jardins estavam mal cuidados
A pintura desbotada
A casa não lembra em nada
Aquilo que foi um dia
Quem vê nem imagina
Os dias de alegria
Qua a gente viveu por lá
A vida sempre prossegue
A gente fica assim
de coração vazio
Como ficou vazia a casa
Hoje em dia
Acho que a gente nem mais consegue
Voar com aquelas asas
Mas, meu Deus...como eu queria
Brincar com a menina em fraldas
E ver brilhar
Aqueles olhos cor de esmeralda
Que quando me lembro, eu rio
Diferente daquela casa
Só de lembrar
Meu coração não é mais vazio.
Uma hora o Sol se põe
Você percebe
Que perdeu a conta dos ocasos
Não se ocupou de contar os sonhos
Nem se importou com medonhos pesadelos
Talvez você tenha sido feliz
Regando ou pintando vasos
Não lamentou as coisas que não viu
Foi feliz ao final
De cada dia que partiu
Nem ligou ao perder
ou ver clarear os cabelos
Sem perceber, cumpriu todos os prazos
Sangrou às vezes, sem chorar
Suportando assim, todas as provas
Confiante, que a cada dia que nasce
Haverão de nascer
Sempre coisas novas
Novas alegrias, talvez tristezas
Não faz mal
A vida tem que ser vivida
todo dia, toda hora, todo mês
Quando a gente vive assim;
Sem preocupação, culpa
ou medo no coração
Viver amanhã aqui? Talvez
Haverá sempre de existir a confiança
De que a vida um dia
Haverá de começar de novo
Um dia a gente vai voltar
A correr e pular
Como fez em outros dias
Num tempo em que ainda era criança
Quando a gente aprende
a não deixar de ser
Esta inocência, pura e divina
Nos dá a certeza
De que vão tornar a acontecer.
Um dia
A gente há de acordar
E perceber
Que o Mundo esta melhor
Um dia
Você vai notar
Que a tristeza
Que parecia não ter fim
Não se senta mais à mesa
Não mais adentra a sua porta
A tristeza
Finalmente se foi
Pode ser até
Que esteja morta
Ninguém sabe
Ninguém viu
Fugiu sem pedir desculpas
Tornou se uma roupa
Que não mais te cabe
A tristeza finalmente
Foi embora
Olhe pros lados
Consulte o relógio
Pois pode ser que seja agora
A hora daquele momento
Tão profundamente
Acalentado.
Pode ser até que perceba
Que ela nunca esteve aí
E que aquilo que te fazia
Sentir se triste e solitário
Sempre a consultar o calendário
Nunca tenha deixado de ser
Somente um amigo imaginário.
Eu tenho uma caneca de café
Que traz um sorriso pintado
Se eu me sinto aborrecido
Olho pra ela; não há como ignorar
É um sorriso daqueles sem paga
Parece até que perdi o juízo
Mas é que sou tradicional
sou fiel, metódico e sistemático
Gosto de ler os mesmos jornais
As mesmas revistas e todas as bulas
Preservo há anos o mesmo emprego
Os mesmos amigos e o amor da mesma mulher
Faço as coisas do mesmo jeito
Toda semana
E tomo sempre outro café
Na mesma caneca que traz
Um diferente sorriso
Estampado na mesma porcelana
Um sorriso meio de lado
Meio ingênuo e meio malandro
Meio bucólico e meio assim...
rindo de mim
Mas ainda é um sorriso
Quando ninguém sorri pra mim
Ela está lá
Me esquecem os amigos
Briga comigo a mulher
Tenho problemas no trabalho
Ficam com raiva de mim
aqui em casa
Eu abro o armário
E ela está lá; sorrindo
Minha única amiga de fé
Me estende sua única asa
E me convida pra um café.
Às vezes, muitas vezes
Eu sinto uma imensa, muito imensa
Muito imensa mesmo
Uma saudade imensa, bem maior
Do que muita gente pensa
E penso nele, penso e me pergunto
Por que é que a gente repete e repete
e repete tantas vezes o mesmo assunto?
Quanta coisa a gente tinha pra dizer
e não disse...
Queria que ele me visse agora
Queria que ele me dissesse
Que sentiu a minha falta
Queria que ligasse pra mim
Qualquer hora dessas
Queria conversar um dia
Sem pressa
Ou gente por perto pra apressar a gente
Um dia o tempo acaba
Um dia um de nós dois se vai
Nunca se sabe
Queria dizer
Pai, meu coração é bem pequeno
Mas você ainda cabe.
Coisas passam despercebidas
Temores contidos
Quando o Mundo Gira
Peixes emergem assustados
Seres emitem som de lira
Pedras rugem
Quando brilha a Lua
Sombras que surgem das sombras
Coisas sem explicação
Rondando as fronteiras
do meu coração
Medos que me fazem
Criar coragem
Meu peito emite
Um silêncio lancinante
E os impulsos descrentes me fogem
Vai longe o tempo da inocência
A gente aprende de repente
a ter prudência
Ao perceber que a Floresta encantada
Que a gente enxergava
espiando pelas frestas
se tranforma do dia pra noite
Em bosque assombrado