Os ponteiros marcam
as horas no terceiro dia
de uma terça-feira qualquer
na verdade
hoje não é dia nenhum
nem acontece nada importante
não há nada
que não tenhamos visto antes
Talvez, se a gente pudesse
aguçar a terceira visão
alçasse, então
O voo tão desejado
rumo ao conhecimento
Que em outros tempos deixamos de lado
por não saber-lhe a importância
a relevância tão acalentada
Que nossa juvenil irreverência
não viu
foi deixada em segundo plano
por anos e anos
Terceirizada
Como se nada fosse
Mas é preciso passar por isso
Pra finalmente compreender
Que esta metafísica jornada
relegada à condição de coisa qualquer
Não é
É algo
Que vai muito além disso
Mas apenas haveremos de enxergá-la assim
Quando firmarmos compromisso
com nós mesmos
Pode ser perto do fim
ou pode ser também agora
enquanto isso
os ponteiros marcam as horas
em uma tarde qualquer
O vento, a fome o medo
a pouca sorte
e a visita periódica
da morte
Não me importa
O importante
é corrigir a vida torta
As notícias que nos chegam de manhã
dizem que o Mundo amanheceu pior
Pior seria se não tivesse amanhecido
eu não veria
a flor pintada em teu vestido
Já não posso mais correr como eu corria
mas ainda passo caminhar no fim do dia
Perdoe minha falta de atitude
Eu não sabia
das vicissitudes da vida
eu não sou nada
Sem você por esta estrada
Que a vida venha desgrenhada
igual aos meus cabelos de menino
venha e seja difícil transpor
Qual fosse mata fechada
a gente passa um pente fino
e vai vivê-la
A gente se embrenha
pra poder conhecê-la
A gente vai descalço
sempre que hover espinhos
Onde não houver dificuldade
Eu crio uma
Sempre que eu vir espaço
conveniente para criá-la
Que minhas mãos se encham de calos
Que a vida venha
Só não quero passar por ela sem vivê-la
E que ela se vá um dia
do mesmo jeito que um dia veio
Não peço facilidades para mim
Quero apenas
que entre o início e o fim
Eu possa deixar algo ali no meio
Não existem espaços vazios
Nem retratos amarelados
Nas paredes do meu coração
Existem sim, abraços que não dei
Existe em meu passado
Uma coleção de passos
Que não levaram a lugar concreto
Mesmo assim, concretizei de alguma forma
Aquilo que fui fazer
Existe uma infinda coleção de palavras
de gestos, de sorrisos, de objetos
Que aparentemente não alcançaram
o objetivo desejado
Foi a maneira subjetiva que utilizei
Que passa esta falsa impressão
Estas coisas estarão sempre lá
Não houve gesto, palavra ou intenção
que tenha sido em vão
Não houve nenhum segundo
Mal vivido em minha vida
Nada daquilo que fiz foi perdido
Existiram apenas
Quem não os compreendesse
Mas elas estarão sempre lá
Com o mesmo desprendimento
a mesma ausência de pretensão
E nenhum arrependimento.
Escrevam em seus diários
Enterrem no fundo dos seus quintais
Anexem aos seus cabedais
Tudo aquilo que presentemente
Nós sabemos que não volta nunca mais
Cada dia de uma vida
São coisas passageiras, efêmeras, transitórias...
temporárias
Cada dia é a própria vida
dividida em várias peças
Não se esqueça de montar corretamente
Teu jogo de encaixe
usando para isso
Cada pedacinho que te chega
a cada vez que teu tempo diário
Avisar que hoje é outro dia
Mesmo que às vezes a vida te impeça
de montar corretamente a tua parte
Viver é uma arte
Um mosaico dependente de você
na qual estão inclusas
essas partes difíceis
Mesmo que não pareça
Portanto; as faça
Sem elas, te garanto
Que a vida não teria a mesma graça.
Dias há em que penso em me calar
E passar a simplesmente ler jornal
Guardar lá no fundo do armário
Este meu já não muito profíquo
Embornal de letras mortas
Absorto em minha leitura
ao final de mais um dia
Me vem a compulsiva e indomável tortura
Quase que lasciva obsessão que me domina
Minha cabeça se inclina
Completamente carregada
da boa e velha poesia pura
daquela que acalma as nossas vidas
traz de volta à razão
as almas dos suicídas
Amaina os corações dos homicidas
É muito mais feliz quem cria
Que aquele que um dia
Leu, porém não entendeu
Que talvez o homicida ou suicida
seja eu.
Quisera viver minha vida
Amando muito e ardentemente
Quisera viver os meus dias
Vivendo de te amar somente
Eu queria te dizer que o meu amor
É amor tão grande
Que até pode haver no Mundo
Outro coração que ame
mas tão grande amor não sente
Amor exuberante
Diante de você
Meus olhos ficam simplesmente exultantes
Amor que te alcança aonde estiver
Portanto, nunca hei de estar distante
As palavras que escrevo
E as flores que te dei
Não podem expressar
A maneira que te vejo
Mas querem te pedir que me veja
Sob o prisma da mesma lente
E que sinta no meu peito
Este coração pulsante
Que se cala diante de ti
Feliz
Vivendo de te amar somente
No dia em que chegaste, primavera
Trouxeste consigo teus irmãos
Maior fosse tua família
traria juntos pais e irmãs
Amanhã, já ninguém se lembra
Que ontem foi mudança de Estação
As folhas já nem sabem mais
Qual é seu tempo certo de cair
Num mesmo dia vem aqui todos vocês
Não existe mais prevalecência
de um irmão sobre os outros três
Eu fico aqui, coberto de descrença
Sem saber dizer ao certo
Quando era mesmo que floresciam os Ipês
Alguém me disse, quase com certeza
não haver mais a antiga beleza
Que gerava as festas das Mudanças de estação
Pois o ano inteiro parece ser um só Verão
Não há mais chuvas finas
Flores, borboletas, abelhas e pássaros
Garoas não mais existem
Nem frio, nem romantismo
O Humano sinismo
que hoje a tudo envolve
Envolveu também a Natureza
Que hoje
Todo aquele cretinismo nos devolve
Os ponteiros da ampulheta mandam avisar
Que a locomotiva que reboca o trem das horas já passou
O gelo derreteu no Pólo Sul
E o Céu azul desta serena tarde
Dentro em pouco, já nem arde
dos primeiros que chegaram,
nada permanece
A grama cresce, o tempo passa, o vento já soprou
toda fumaça que passou pela chaminé
Que ontem foi demolida
O couro da pulseira
do teu luxuoso relógio de ouro
ressecou
Juntamente com todos teus demais tesouros
Se era apenas isto que juntaste em vida
As notícias escritas no rodapé dos calendários
Creio que sejam um tanto ruins
A passagem do tempo não tem retrocesso
O Palácio desaba, havia algo mais, escrito no verso
das páginas que tanto leu, acho que você nem viu
Um dia o tempo acaba
Indiferente ao fato de não ter fim
Erguei, irmãos, a taça
Hoje o Mundo amanheceu em paz
As pessoas se reúnem nas praças
Acabou a dor, cessaram todas as guerras
O amor venceu, há imensas colheitas
a serem feitas em todos os milharais
e tudo mais que se planta no Mundo
O leão e a hiena hoje são amigos
Não há mais fumaça no ar
Os Beatles vem aí para cantar
Novas canções e canções antigas
Há Sol no Céu, mas ninguém há de pegar insolação
Erguei a taça, meus irmãos
O Pássaro Preto e o Canário
Nunca mais vão viver em gaiolas
Todo mundo agora vai jogar bola
e todos os jogos haverão de terminar em empate
Somos todos vencedores
Não há mais necessidade de saber quem é melhor
A idade de todo mundo vai parar nos trinta
As cobras terão asas
Porém só vão comer
Os insetos que forem muito chatos
Tem tinta pra pintar todas as casas
Todas as crianças vão ganhar sapatos novos
O Polvo vai inaugurar um Parque Aquático
A Matemática nunca mais vai ser difícil
Vamos todos nos reunir e tirar um grande retrato
Erguei a Taça, meus irmãos
façam espocar os fogos de artifício
Acabaram as doenças
Se extinguiram o engano, as diferenças
Terminou a indiferença
Todos os juízes de futebol
Agora terão duas mães de verdade
Encham suas taças com champanhe
A vida vai ser só felicidade.
Eu criei em minha vida um caldeirão
Usei para isso a magia que me surgia
desde criança, quando em meus primeiros dias
ficava triste por não saber
A causa e o motivo das coisas que aconteciam
tanta emoção guardada aqui no peito
Querendo sair, era tanta coisa junta
Eu as fui transformando, então
Em poema e poesia
Escondendo ali minhas perguntas
E prossigo fazendo isso, hoje em dia
tanto tempo passou
Muita coisa me disseram e fizeram
Em muitos lugares tentei entrar
Mas ali, respirava-se outros ares
alheios aos meus, ali não me quiseram
Voltava então pra casa
E com o tempo eu aprendi
A tornar esses sentimentos
Em algo que pudesse dividir
Buscando a beleza
Que pode existir em toda tristeza
Compartilhar também as alegrias
Que eu sinto hoje
E que ainda me surgem do mesmo jeito
desde aquele tempo em que eu ainda vivia
buscando a causa de tudo que acontecia
tentando descobrir como funciona a magia
que pudesse transformar
em beleza e alegria
os tempos que eram apenas
os meus primeiros dias
Creio que me seja preferível
Viver de saudade, talvez até
de insanidade, uma curta loucura de mentira
À viver as verdades que amanhecem com os dias
Eu acho que esse quotidiano mundano
É horrível demais, para vivê-lo assim
da maneira que ele me vem
Prefiro conversar com as almas do além
A gente vai falando sobre as coisas
que nos eram costumeiras
lealdade, coragem, galhardia e outras besteiras
bobagens que não fazem mais
parte deste infame dia a dia
em que impera a covardia
na triste realidade
Que os modernos amanheceres nos apresentam
Calço meus chinelos e vou ao quintal
até os voos mais inocentes
das transeuntes borboletas soam falsos
Elas dão-me a impressão
Que se esqueceram como se voa
e voam à toa um voo desajeitado
De inseto que não poliniza nada
Voa um voo meio que andando
de vez em quando vêm-me a impressão
Que ela está a ponto de pedir minha ajuda
A vantagem que vejo no inseto
é que ele voa mal, mas voa quieto
seu voo suicida de quem se autoatropela
Deus fez muito bem
Em fazer da borboleta
Uma criatura muda e bela
Eu penso que ainda sou criança
e peço um pedaço de doce
eu queria um pouco de bala
Fico rouco de chorar
Minha mãe me chama
Pois meu tempo está passando
Eu penso que estou numa festa
provo a bebida que alguém me trouxe
Eu ouço o que você fala
fico louco pra dançar
Porém eu vou pra cama
Pois meu tempo está passando
Eu vejo e meço
O tempo que ainda me resta
a cada dia um desenlace
E o coração se cala
Nessa hora eu penso em orar
Pois Jesus me ama
E meu tempo está passando.
Te espera o Mar
Quando você vai até lá
Querendo te engolir
Morto de vontade de te afogar
O Mundo já te engoliu
E você nem mesmo viu
Riu, enquanto teu melhor amor partia
E assim se deixou ficar
Feliz, por ter escolhido
Quem não te quis um dia
Hoje, pensa em tudo que fez
E chora, com o coração partido
Será que riria ainda
Se aquele grande amor
Não tivesse ido?
Nestas idas e vindas da vida
Ninguém pode responder
Minha querida!
Ainda resta hoje
Todo aquele imenso Mar
de dúvidas e perguntas
Eu velo que estejas contente
Em algum Universo Paralelo
Existem duas almas
Que nunca vão descobrir isto juntas
Pois
Aquele amor que deixaste partir
Não há de lembrar de você
Se acaso um dia o vir voltar
Ele Não ficará junto a você no fim
Nem mesmo se a ambos o Mar afogar
Nem mesmo assim.
Há momentos em que tudo que penso
é somente sumir, partir, ir embora
Estou por aqui há tanto tempo
Que nem ao menos me lembro
Qual das pernas eu uso
Pra dar o primeiro passo
Sinto saudades de um dia
Que nem ao menos sei dizer
Se realmente existiu
Ou se meu coração o criou
Pra espantar a tristeza
Num momento de rara beleza
Eu voava por sobre pântanos e montanhas
E me sentei, cansado
Embaixo de uma árvore
Arreada de lindos e estranhos frutos
Ao meu lado uma voz me dizia
Que aquele havia sido
O dia mais divertido de nossas vidas
Hoje, tudo que me resta
Além de dias diminutos
É a vontade de reencontrar
Os pássaros que voaram comigo
Numa antiga lembrança
de uma hora amiga
Que eu não sei dizer
Se realmente existiu.
Houve um tempo em minha vida
Que havia monstros no telhado
Fantasmas atrás da porta
Esqueletos embaixo da cama
Mas alguém
sempre me chamava pra jantar
Hoje ninguém me chama
Agora ninguém se importa
Hoje o monstro sou eu
Aquele tempo já passou
O outro mostro morreu
E eu ando tão cansado
Que nem posso mais subir
Em nenhum telhado
E eu olho pras crianças
Um tanto assustado
Elas também ficam um tanto ressabiadas
Mas depois a gente brinca
e dá boas risadas
Sempre que existem
Esses encontros
Eu me lembro do passado
E sinto muita saudade
dos meus monstros.
Talvez às vezes você pense
Ser um nada, que não tem nada
Um nada que não conquistou nada
Talvez você pense de vez em quando
Que a sua vida não vale nada
Eu conheci algumas pessoas
Que trocaram tudo por nada
Por pensar que não tinham nada
E querem desfazer a troca
Pois descobriram
Ter entrado num buraco de minhoca
Mas o tempo
Toca o barco sempre em frente
Cada decisão errada
Será sempre anotada
No livro da sua vida
Que tem espaços demarcados
Pra escreverem
A entrada e a saida
E cada decisão equivocada
Ali
cada letra é lida
Pode acontecer
De algum nada
Valer muito mais que nada
E o seu arrependimento
Não valer nada
Suas palavras ditas ao vento
serão levadas
E a vida não vai responder
Nada.
Pode acontecer de um dia
Eu me tornar um fugitivo
Um homem procurado
Um complicado ser
Esquecido, odiado e abandonado
Porém, nesse dia
Eu ainda serei um homem
Mesmo que procurado vivo ou morto
Um ser humano desprezível e torto
mas vivo
Com toda certeza
Um dia todos nós seremos
Uma lembrança, uma simples fotografia
No colo de uma criaça curiosa
A perguntar quem fomos nós
E talvez o seu interlocutor
Não saiba ao menos responder
Seremos uma lembrança morta
Mas tudo isso não importa
Hoje ainda é outro dia
Hoje ainda é o dia de hoje
Não permita que ele fuja
Sem deixar nele sua marca
Pode ser que amanhã
O Sol não surja para nós
Não deixe nunca seu momento de lado
Os dias que se passaram
Sem que percebêssemos
Hoje, sem dúvida
Em nossos corações
São os mais intensamente procurados.
Quatro almas de repente
Mudam um Mundo inteiro
Mudaram-no tão profundamente
E tanto para melhor
Que chego a pensar
Que a História poderia
Ter parado alí
Não conheci nada e nem ninguém
Que resumisse tão bem
Aquilo que minh'alma desejava ouvir
Mas o tempo não parou
Assim como não morreu
e jamais haverá de morrer
O meu querido e amado
Bom e velho Rock'n Roll
Duas dessas almas
Hojem transformam em festa
As calmas tardes celestes
E cá neste mundo é tarde
Pra quem não viveu pra vê-los
As duas almas restantes
Dividem-se em quatro
Pelas quartas partes do Mundo
Nunca mais, em momento algum
Houve melodias
Que me tocassem tão fundo a alma
Se eu pudesse escolher um presente
Pediria a Deus somente
Em algum dia de algum domingo
Poder me sentar e passar algum tempo
Cantando junto com Paul e Ringo.
"A tecnologia do mundo de hoje torna a atual geração de jovens indubitavelmente mais bem informada do que era a minha, na minha juventude. Mas isso não a faz em absoluto ser mais inteligente, parece até que regrediu. Se quisermos realmente ter uma Humanidade mais inteligente, creio que devemos mesclar a educação antiga com a tecnologia atual. Está mais que provado que a tecnologia sem direcionamento falhou."
Terça-Feira, Madrugada
Noite enjaulada
A Cidade parece escondida
Paisagem parada
Não vejo sinal de vida
Trancaram todos os portões
Estou sozinho comigo
Chego a ter medo dessa paz
Que se abriga em todos os quintais
Todo Mundo foi dormir mais cedo
A cor da luz da noite
É daquelas que se vê raramente
E eu ouço aquele característico
Som que sempre emana do silêncio
Seu tímbre tem algo de místico
Abafando os ruídos da noite
Estalidos e crepitares
Imagino ouvir distantes
Quebrares de ondas que vêm de algum Mar
A Lua tem ar suspeito
Daqueles de quem sabe algum segredo
Mas não conta pra ninguém
De jeito algum
Há anjos em pé, por sobre as nuvens
Fachos de luz, quase que imperceptíveis
Cruzam os Céus em movimentos lentos
Modorrentos
Parece que a qualquer momento
Virão pairar pertinho da janela
E anunciar que é hora de partir
Pra algum lugar
Onde eu não quero ir
Desejo boa noite
Apago a vela
Vou dormir