"O multiculturalismo contemporâneo é mais um passo na mesma direção desumanizadora: um cigano ou um negro ou um árabe não é visto como uma pessoa como as outras, com as suas diferenças e idiossincrasias, mas meramente como um anúncio da sua etnia ou nacionalidade ou cor da pele.[...]
Uma parte importante dos males da humanidade resulta precisamente destas identificações tolas com mentalidades genéricas, pois sem isso dificilmente uma pessoa medianamente boa conseguiria matar ou torturar outro ser humano em boa consciência.[...]
A defesa multiculturalista do respeito pelas etnias ou religiões ou coisas do gênero é um efeito da velha incapacidade humana para ver outras pessoas como pessoas quando são ligeiramente diferentes.[...]
Atualmente, a moda de falar de 'O Outro' trai esta incapacidade para ver as pessoas como pessoas. Não há O Outro. Isto é um veneno mental que obriga a ver as outras pessoas como anúncios abstratos da alteridade e não como pessoas."
Entre uma tolice e uma ideia sensata a distância lexical pode ser quase nenhuma, mas imenso o abismo semântico. E é precisamente nesta falta de precisão que se escondem muitos horrores humanos. Ideias originalmente boas são distorcidas e tornam-se péssimas práticas, ideias más são vistas como boas porque são superficialmente parecidas com outras que realmente são boas: e é destes equívocos que é em parte feita a vida política contemporânea.
A escola deveria dar ao cidadão um contacto com o pensamento sofisticado e cuidadoso, mas não o faz. Da escola primária à universidade, aprende-se a repetir, sem pensar, o que está na moda e se vê na televisão: [...]. É como se fôssemos incapazes de abandonar realmente a bestice humana intrínseca, pintando-a então com cores mais garridas para disfarçar.
"Pensar é uma atividade natural. Todos pensamos no dia-a-dia.
Ser um filósofo é só uma questão de pensar de forma sistemática, clara e consequente. Não dói nada. É de graça. Ou quase.
O Pequeno Livro do Filósofo oferece sugestões práticas para pensadores intrépidos, tímidos ou pura e simplesmente indecisos.
E não julgue que para ser um filósofo é preciso assumir um ar grave e profundo. Na verdade, alguns dos pensamentos dos grandes filósofos não eram graves nem profundos e toda a gente acreditou neles à mesma só porque tinham fama de ser graves e profundos.
Por isso, descontraia-se. Pense. Com alegria. Vai ver que não se arrepende. E não faz mal se não resolver todos os problemas da filosofia. Até hoje, ninguém fez tal coisa."
Muitos pedagogos de bancada pensam que sem esforço, concentração e determinação se consegue aprender a ler e a escrever, aprender matemática e física, aprender história e sociologia, filosofia e pintura, música e nutrição. O irônico disto é que no caso do desporto já é óbvio para toda a gente que sem esforço, concentração e determinação nunca se sai da mediocridade ou, na melhor das hipóteses, da mediania. Não há ensino de excelência que despreze o esforço, a concentração e a determinação. Para aprender coisas pela rama enquanto se come bebe Coca-Cola e se responde a frivolidades no Facebook não precisamos da escola para nada; as inanidades da televisão e da Internet bastam.
Qualquer método pedagógico que incida quase exclusivamente na oralidade e nos meios áudio-visuais, concebendo a leitura e a escrita como meros apêndices algo acidentais e até um pouco incômodos, terá poucas probabilidades de ser bem-sucedido. É ao escrever, e ao ler atentamente, que se vai além de meras generalidades superficiais e se ganha competências reais em biologia, literatura, física, matemática, história ou filosofia.
Admitindo que parece realmente impossível imaginar o que seria uma sociedade perfeita, segue-se que devemos exercer alguma cautela perante todas as doutrinas que pretendam impor politicamente essa imaginada perfeição social — porque é diminuta a probabilidade de ser realmente perfeita. Se queremos melhorar as coisas, o melhor é fazê-lo por reformas sucessivas e perfeitamente delimitadas e concretas, não almejando a reestruturações gigantescas a partir do zero. E esta, parece-me, é a diferença radical entre a mentalidade estatista napoleónica, presente hoje em muitas pessoas, e a mentalidade liberal.