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Frases de Dênis Rafael

5 frases

Morte e redenção Hoje hei de encontrar-me com Deus Mamãe, tens de me ajudar nisto
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Morte e redenção Hoje hei de encontrar-me com Deus Mamãe, tens de me ajudar nisto Lembro-me de ter sido anjo um dia Tu dizias tão certa e tão docemente “Meu anjinho” Papai já o dissera também Lembras? Mamãe Não chores, hei de encontrar-me com Deus Mas aquele anjo pequeno Lembras? Não – hei de ser ainda menor Hei de ser menos Hei de ser do tamanho de Deus Mas ao contrário Podes ajudar-me nisto? Mamãe Perdão, que eu não queria ter sido tão grande Eram os demônios Tantos demônios Não bastava ser um anjo Foi preciso ser grande Acho que bem do tamanho de Deus De verdade Sabes? Foi preciso te deixar a chorar E eu chorei também. Tantos demônios... Mas hoje hei de encontrar-me com Deus Tão pequeno quanto Ele é grande Sabes o tamanho de Deus? Pois devo ser o contrário Tão grande quanto eu jamais pudesse ser ao contrário. Mamãe Temi-a covardemente, este grande louco Mas se tu soubesses como é pequena Acho que do tamanho de Deus Mas ao contrário Sabes a morte? Quando eles nos deixarem a sós Quero ser menor que o menor dos anjos Porque hoje hei de encontrar-me com Deus.

Duas certezas Só tenho essas duas certezas: A ansiosa certeza do não saber
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Duas certezas Só tenho essas duas certezas: A ansiosa certeza do não saber Até quando hei de permanecer Na escuridão que ainda habito Diante do vão tentador da janela Calado como o silêncio. E a covarde certeza de saber-me ameaçado Não pela perigosa lida do vento Da chuva, de corujas ou de ladrões Mas pela luz inofensiva que há além da janela Onde mora a mais dura das minhas certezas A que evito cegamente Cega certeza da sua ausência.

"Um louvor às calamidades É verdade que os soldados ainda morrem Também crianças e cachorros
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"Um louvor às calamidades É verdade que os soldados ainda morrem Também crianças e cachorros Mas não há guerra que me alcance Não há mísseis nem outra arma sobre mim Nenhuma ameaça ou perigo O terror sempre tão distante (Reconheço o esforço dos jornais Embora as edições não me encantem Sei que fariam chegar até mim Não fosse o atraso da ciência Um pedaço ainda mole de corpo morto Uma gota de sangue fumegante) E adormeço longe de calamidades Nessa dormência que é ser e só As pestes andam a depurar sementes Inviabilizam-se epidemias improváveis Sou imune à oficial precariedade dos acordos E a tudo o que será História doravante."

Do que se vai passando neste jardim depois da chuva Há um amontoado de papeis e garrafas, um barbeador, um frasco de desodorante, o resto de um sanduíche, outras tantas coisas descartadas. Ao lado, um saco negro intacto, lixo como o outro e como foi deixado ontem. Que buscavam…
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Do que se vai passando neste jardim depois da chuva Há um amontoado de papeis e garrafas, um barbeador, um frasco de desodorante, o resto de um sanduíche, outras tantas coisas descartadas. Ao lado, um saco negro intacto, lixo como o outro e como foi deixado ontem. Que buscavam os cães? A mulher que julgo ser a mãe do menino de bonezinho azul descuida e solta as suas mãozinhas por um instante. Ele se espatifa no chão e a alegria vai dando lugar a um chorinho que logo findará também, porque, como o sol e a lua, devem suceder-se sem demora nesta previsível encenação. Não deviam os homens descalçar os pés, para que se mantenha imaculado o chão dos jardins onde se espatifam as crianças? Porque choveu neste jardim, alguns pássaros sentem agora a sede urgente das plantas e bebem da água que descansa nos ramos mais fortes das cerejeiras. Esses ramos, eles resistirão ao próximo outono? Tivesse sido lançada sobre o fluxo de um rio furioso, também nele flutuaria a bola de cores leves que as crianças esqueceram no chafariz de água calma e já antiga. Também todas as águas brincam de bola, aquelas do rio desengonçadas como um menino gordo? Um mendigo dirige-me uma saudação jamais ensaiada, estende sobre um dos bancos o seu cobertor (apropriando-se desse banco ele parece ganhar alguma identidade) e aguarda tolerante o que lhe sirva de alimento. Se um dia a comida faltar, voltará ele a este jardim? Posso ouvir a voz lá longe: ...três, quatro, cinco, seis, sete... E me distraio com um bem-te-vi que sobrevoou o jardim e rumou para o leste. O que procura a garotinha com a diligência de um investigador? Ele vai se afastando depois de receber o beijo no rosto; abrem-se as comportas que represavam dentro deles o choro pubescente; ela sepulta o seu amor embaixo de uma cerejeira e se põe velá-lo, desprovida daquele colo. O que teria se adiantado à ternura do olhar que veio depois - o beijo, as lágrimas ou o sepultamento?

Se quiseres ausentar-se da cegueira de sua velhice Recuse aos seus olhos, amanhã, o consolo dos jornais Visite uma vez mais o radiante pomar de sua infância
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Se quiseres ausentar-se da cegueira de sua velhice Recuse aos seus olhos, amanhã, o consolo dos jornais Visite uma vez mais o radiante pomar de sua infância Mas rejeite, então, a madureza sedutora dos pêssegos e das mangas E deixe que os ventos levem os sucos que se precipitam Siga a oeste sobre o sabor fluido do terreno Não gatinhando como o menino que fora Enverede, antes, para o profundo alinhamento de suas árvores Agarrando-se à zelosa firmeza dos troncos mais cansados E alcance o ressentido perfume dos limoeiros Se quiseres ausentar-se da cegueira de sua velhice Viole os limões com a vil severidade dos seus dedos murchos Transpasse a falência dos seus olhos com as cascas laminadas Despeje dentro deles o sumo corrosivo E esconda-os, depois, atrás destes óculos de espinhos