Não acredito na afirmação de que as novas tecnologias de comunicação trarão mais qualidade de vida e igualdade para as classes sociais, maior participação política ou melhor cobertura democrática; pelo
contrário, creio que as novas tecnologias de comunicação estão muito ligadas
à questão econômica – financeira , e de que toda informação é paga, se não
por via direta da técnica e dos meios, por via indireta do saber para se ter,
entender e criticar.
O ser humano se desenvolveu muito tecnologicamente e cientificamente, e pouco abriu-se para as questões da essência humana, do seu eu e do seu ego, descobriu menos sobre sua mente e seu comportamento psicológico do que sobre computadores, e quanto mais ele se aproxima do computador como seu alter-ego, mais seu espelho interior fica embaçado.
Lembremos, por exemplo, que a crise da Bolsa de Valores (1929) de Nova Iorque, não foi somente uma crise financeira, mas uma crise emocional mundial, como quando o governo Collor tirou o dinheiro da
poupança das pessoas no Brasil; foi uma crise emocional coletiva e nacional.
Teve gente morrendo mais do coração pela emoção do que pela falta do dinheiro propriamente dito.
Em várias partes do mundo e por vários motivos as pessoas procuram entrar em processos de catarse, uma vez que os desenvolvimentos humanos, sociais e políticos não acompanharam o desenvolvimento técnico-científico. Por isto também temos tantos gurus contemporâneos e as pessoas
acreditam em fadas, em anjos, em duendes, porque o desenvolvimento técnico
e industrial não conseguiu tampar os buracos de ordem afetiva e emocional.
O pouco que a gente tem às vezes é muito para alguém.
Um dia deixei o troco de uma prestação que paguei na loja para o vendedor almoçar, porque escutei ele pedindo um vale e o supervisor respondendo que os vales dele já tinham acabado. Agora toda vez que o encontro na cidade ele lembra disto. Era pouco, mas para ele é uma lembrança para a vida toda. Apenas 12 reais, mas para ele era a consideração de alguém que nem seu nome sabia qual era.
Na busca da imagem perfeita e bela da figura Narciso, o ser humano passa a se reconhecer no mundo redesenhado e virtualmente tatuado, mas esse argumento político de buscar a perfeição no ídolo da
globalização pode levá-lo, por meio dos meios eletrônicos da comunicação, a
se tornar politicamente abstrato e ingressar num processo de coisificação,
transformando-o em um objeto do próprio prazer de se ver.
O grande desafio não é analisar o rosto de Narciso redesenhado nas novas tecnologias de comunicação. Devemos ir mais longe e buscar a análise de porque precisamos sempre da imagem de Narciso no espaço comunicacional e na vida, porque o ser humano busca sempre atingir o inatingível, até para que possamos, dessa maneira, analisar os reflexos políticos vistos neste estudo.
As novas tecnologias de comunicação reforçam o crescimento das práticas do neoliberalismo; ajudam as estratégias neoliberais a avançar na sociedade, pois a conjugação de seus recursos técnicos em nível mundial mexe também com as sociedades locais, e os medias fazem isso não circunstancialmente, mas decisivamente na esfera pública: as novas
tecnologias de comunicação integram o plano de atuação política internacional para a desintegração de um plano de projetos nacionais.
Será quase impossível alguém sobreviver sem se ajustar ao poder de influência que estas novas tecnologias repercutem na vida social das pessoas, principalmente no campo profissional, onde os que não se reciclarem correm o risco de caírem no
ostracismo pela pressão feita pelos conglomerados de empresas e pela livre
concorrências dos novos profissionais e do mercado em si.
No vazio da imagem, o olhar contemporâneo encontra um refúgio
para sua acomodação, um olhar repousa procurando exílio político, e na cor e
na sombra da imagem o ser humano se personifica como parte de um todo
planetário ao qual, na sua totalidade, ele não pertence somente em partes. As
novas tecnologias podem estar servindo mais como uma necessidade de
vaidade, mais como um acessório na vida cotidiana do ser humano do que
como parte essencial.
Não acredito que haja gente binária porque a raça humana é feita de possibilidades, e não de exatidão, entre certo ou errado, entre positivo ou negativo, entre falso ou verdadeiro. O computador tem arquivos, não tem consciência. O computador é preparado para dar respostas prontas, não para criticar ou pensar. O computador não é um ser político como o homem, é somente um objeto de poder para o homem.
Portanto, como não conhecemos o que é o original de Deus, tentamos buscar esse original num homem inventado, num homem de ficção, e a busca da perfeição se faz a partir da realização dos ritos nos campos da
política, religião, arte e cultura e, mais tarde, nos meios de comunicação.
Os países como EUA e demais países
desenvolvidos tem maior facilidade de se ajustarem as novas exigências do mercado internacional e de prepararem pesquisadores e profissionais para o
novo campo de trabalho, porque foram justamente eles que implantaram estas
tecnologias, enquanto os países do terceiro mundo não podem tão cedo participar do conceito de consumidores do futuro, porque o futuro do terceiro mundo é sempre tardio em relação as novas técnicas que trazem maior poder de compra e de aquisição aos detentores das invenções destas técnicas e dos meios delas.