A partida de mamãe em 2010, aos noventa anos, pareceu-me natural, a princípio. Depois das cerimônias de praxe, voltei para o meu lar com a sensação de dever cumprido e com a certeza que fizéramos, minha irmã e eu, o nosso melhor para lhe proporcionar conforto, assistência digna…
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A partida de mamãe em 2010, aos noventa anos, pareceu-me natural, a princípio. Depois das cerimônias de praxe, voltei para o meu lar com a sensação de dever cumprido e com a certeza que fizéramos, minha irmã e eu, o nosso melhor para lhe proporcionar conforto, assistência digna e serenidade nos seus últimos tempos conosco. O vazio que sua ausência deixou foi aos poucos preenchido pelas lembranças e pelas histórias que dela rememoramos sempre que nos vemos. O que me causa grande surpresa é o fato de que quanto mais o tempo passa, menos me lembro dela idosa e alquebrada pela idade, mas da mãe da minha meninice: Ativa, lutadora, precocemente viúva, dando murros em ponta de faca para nos alimentar e educar. Vejo seu rosto jovem, lembro dos planos que ela tinha para nosso futuro e do quanto trabalhava, da aurora ao anoitecer, sem queixas, sem lamentações. Isso tudo me faz refletir sobre as marcas que deixamos nos nossos e que os exemplos que recebemos, na tenra idade, ficam amalgamados em nossa alma. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da palavra "eternidade". Cika Parolin