Era uma caixa de madeira envernizada, com detalhes florais em machetaria. À menor distração de mamãe, embrenhava-me no seu quarto,
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Era uma caixa de madeira envernizada, com detalhes florais em machetaria. À menor distração de mamãe, embrenhava-me no seu quarto, onde, no fundo do guarda-roupas, estava aquela maravilha. Dentro dela, em séphia, muitas fotos antigas. Retratavam mulheres, homens e crianças elegantemente vestidos à moda dos anos vinte, trinta, quarenta... Coques imensos, sedas, ternos, bebês arrumadinhos. O sorriso contido das mulheres, como convinha à época! Homens carrancudos, com bengala e bigode elaborado. Intrigavam-me especialmente algumas fotos milimetricamente cortadas que sonegavam, aos meus olhos ávidos de criança, personagens misteriosos, histórias desconhecidas, dramas e segredos desbotados. Ali ficava durante horas a observá-las. Identificando traços familiares, perguntando-me quem eram aquelas pessoas, o que tinham vivido, de onde vieram, o que delas ficara em mim? Algumas respostas foram dadas, mais tarde. Outras jamais! Das minhas furtivas incursões ao armário de mamãe, restou-me a certeza de que o tempo apaga resquícios de vidas que geraram as nossas. Preservadas e silenciosas numa simples caixa de fotografias. Cika Parolin