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Frases de Cecília Meireles

328 frases

Aceitação É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas
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Aceitação É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas, que desejar que apareças, criando com teu simples gesto o sinal de uma eterna esperança. Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu. Desenrolei de dentro do tempo a minha canção: não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos diaslímpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança,…
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Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos diaslímpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz. Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Canção Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca:
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Canção Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca: bateu-me o vento na boca, e depois no teu ouvido. Levou somente palavra, deixou ficar o sentido. O sentido está guardado no rosto com que te miro, neste perdido suspiro que te segue alucinado, no meu sorriso suspenso como um beijo malogrado. Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse tão triste. Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê bem... Só se aquele mesmo vento fechou os teus olhos também...

Lua Adversa Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida,
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Lua Adversa Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

É preciso não esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes
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É preciso não esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes nem a oração de cada instante. É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre. O que é preciso é esquecer o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, a idéia de recompensa e de glória. O que é preciso é ser como se já não fôssemos, vigiados pelos próprios olhos severos conosco, pois o resto não nos pertence.

CÂNTICO II Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens...
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CÂNTICO II Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens... Não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo. Vê a tua vida em todas as origens. Em todas as existências. Em todas as mortes. E sabe que serás assim para sempre. Não queiras marcar a tua passagem. Ela prossegue: É a passagem que se continua. É a tua eternidade. És tu.

Se não chover nem ventar, se a lua e o sol forem limpos e houver festa pelo mar,
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Se não chover nem ventar, se a lua e o sol forem limpos e houver festa pelo mar, - ir-te-ei visitar. Se o chão se cobrir de flor, e o endereço estiver claro, e o mundo livre de dor, - ir-te-ei ver, amor. Se o tempo não tiver fim, se a terra e o céu se encontrarem à porta do teu jardim - espera por mim. Cantarei minha canção com violas de eternamente que são de alma e em alma estão. - De outro modo, não.

Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
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Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

FLOR JOGADA AO RIO Entre eclusa e esparavel faremos a canção triste
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FLOR JOGADA AO RIO Entre eclusa e esparavel faremos a canção triste para uma flor de papel. O esparavel a amparar-te, a eclusa a esperar por ti e o tempo amargo a quebrar-te. Flor imaginária _ flor que vais viver para sempre só de imaginário amor. Por isso, entre o esparavel e a eclusa ficas tão triste como a canção num papel.

ATÉ QUANDO TERÁS, MINHA ALMA, ESTA DOÇURA Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar,
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ATÉ QUANDO TERÁS, MINHA ALMA, ESTA DOÇURA Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre _ insegura _ segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

BERCEUSE PARA QUEM MORRE Dorme... Dorme... Rolam pelas vertentes
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BERCEUSE PARA QUEM MORRE Dorme... Dorme... Rolam pelas vertentes das montanhas, as estrelas cadentes... Meu amor, a noite mansa dança,dança no silêncio do Jardim... Lento, um cipreste balança... Tu, descansa, meu amor, perto de mim... Dorme, dorme como as rosas noturnas, quando há trevas perigosas de furnas... Meu amor, não se descreve esta neve que dos céus descendo vem... É um beijo breve... O mais breve... O mais leve... Que não se deu em ninguém... Dorme... O luar se espalha triste na altura... Quem sabe, é, tudo que existe, loucura?

Desenho Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa
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Desenho Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa Tudo é preciso. De tudo viverás. Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas. Com apurado rigor. Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas, projetarás estruturas. Número, ritmo, distância, dimensão. Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória. Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás. Todos os dias estarás refazendo o teu desenho. Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida. E nem para o teu sepulcro terás a medida certa. Somos sempre um pouco menos do que pensávamos. Raramente, um pouco mais.

ASSIM MORO em meu sonho: como um peixe no mar. O que sou é o que vejo.
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ASSIM MORO em meu sonho: como um peixe no mar. O que sou é o que vejo. Vejo e sou meu olhar. Água é o meu próprio corpo, simplesmente mais denso. E meu corpo é minha alma, e o que sinto é o que penso. Assim vou no meu sonho. Se outra fui, se perdeu. É o mundo que me envolve? Ou sou contorno seu? Não é noite nem dia, não é morte nem vida: é viagem noutro mapa, sem volta nem partida. Ó céu da liberdade, por onde o coração já nem sofre, sabendo que bateu sempre em vão.