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Frases de Augusto dos Anjos

99 frases

Hino à dor Dor, saúde dos seres que se fanam, Riqueza da alma, psíquico tesouro,
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Hino à dor Dor, saúde dos seres que se fanam, Riqueza da alma, psíquico tesouro, Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Com os corpúsculos mágicos do tato Prendo a orquestra de chamas que executas... E, assim, sem convulsão que me alvorece, Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas!

A Fome e o Amor A um monstro Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
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A Fome e o Amor A um monstro Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta, Receando outras mandíbulas a esbangem, Os dentes antropófagos que rangem, Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta, Rugindo, enquanto as almas se confrangem, Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim, tragando a ambiência vasta, No desembestamento que os arrasta, Superexcitadíssimos, os dois Representam, no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois!

Queixas noturnas Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh'alma sai agoniada.
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Queixas noturnas Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh'alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada, entre estes monstros, ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta... Para pintá-lo, era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém, armado de arcabuz, Na ânsia incoercível de roubar a luz, Estou à espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. As minhas roupas, quero até rompê-las! Quero, arrancado das prisões carnais, Viver na luz dos astros imortais, Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito, no combate, A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem; Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra, em coalhos, pela boca. E muitas vezes a agonia é tanta Que, rolando dos últimos degraus, O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça, E tombe para sempre nessas lutas, Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã, Igual à luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão, é inútil, é improfícuo, em suma; Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto; A bênção matutina que recebo... E é tudo: o pão que como, a água que bebo, O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração - esta arca, Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu; Seja este, enfim, o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me... Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Budismo Moderno Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa.
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Budismo Moderno Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração, depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo; Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo!

IX de OS DOENTES O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Restavam só de Augusto
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IX de OS DOENTES O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera, em vez de hiena ou lagarta, Uma sobrevivência de Sidarta, Dentro da filogênese moderna; E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda, Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. No céu calamitoso de vingança Desagregava, déspota e sem normas, O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz, vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro, Para alcançar depois a periféria! Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces! Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral, tudo a extenuar-se Estava. O Espaço abstrato que não morre Cansara... O ar que, em colônias fluidas, corre, Parecia também desagregar-se! Os pródromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto... Hirto de espanto, Eu sentia nascer-me n’alma, entanto, O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo, Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Igual a um parto, numa furna, Vinha da original treva noturna, O vagido de uma outra Humanidade! E eu, com os pés atolados no Nirvana, Acompanhava, com um prazer secreto, A gestação daquele grande feto, Que vinha substituir a Espécie Humana!

AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre, um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura,
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AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre, um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura, Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Quantos, oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d'infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Morrera um dia desvairado, estulto, Su'alma livre para o céu se alara. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo, Pois se da Religião fizeste culto, Foste do amor o mártir sacrossanto".

Monólogo de uma sombra Sou uma Sombra! Venho de outras eras, Do cosmopolitismo das moneras...
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Monólogo de uma sombra Sou uma Sombra! Venho de outras eras, Do cosmopolitismo das moneras... Pólipo de recônditas reentrâncias, Larva de caos telúrico, procedo Da escuridão do cósmico segredo, Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada, ampla, vibra A alma dos movimentos rotatórios... E é de mim que decorrem, simultâneas, A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tectos, Não conheço o acidente da Senectus — Esta universitária sanguessuga , Que produz, sem dispêndio algum de vírus, O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social, possuo uma arma — O metafisicismo de Abidarma — E trago, sem bramânicas tesouras, Como um dorso de azêmola passiva, A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Com um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A podridão me serve de Evangelho... Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques E com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha, Amarguradamente se me antolha, À luz do americano plenilúnio, Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias, Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno, Com a cara hirta, tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens, Que se chama o Filósofo Moderno!

Desde então para cá fiquei sombrio Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade
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Desde então para cá fiquei sombrio Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade!” “Meu coração, como um cristal, se quebre, O termômetro negue minha febre, Torne-se gelo o sangue que me abrasa, E eu me converta na cegonha triste Que das ruínas duma casa assiste Ao desmoronamento de outra casa!” “Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a alegria é uma doença E a tristeza é minha única saúde.” "Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes Tudo que sentes. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes!" "(...) Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que às dores resiste) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Que mal o amor tem me feito! Duvidas?! Pois, se duvidas, Vem cá, olha estas feridas Que o amor abriu em meu peito. Passo longos dias, a esmo... Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! (...)" "Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o ômega Amarguram-te. Hebdômadas hostis Passam... Teu coração te desagrega, Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris! Fruto injustificável dentre os frutos, Montão de estercorária argila, Excrescência de terra singular. Deixa a tua alegria aos seres brutos, Porque, na superfície do planeta, Tu só tens um direito: - o de chorar!" (Eu e Outras Poesias)

Vandalismo Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas,
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Vandalismo Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas, Onde um nume de amor, em serenatas, Canta a aleluia virginal das crenças. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos ... E erguendo os gládios e brandindo as hastas, No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Ao Luar Quando, à noite, o Infinito se levanta A luz do luar, pelos caminhos quedos
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Ao Luar Quando, à noite, o Infinito se levanta A luz do luar, pelos caminhos quedos Minha táctil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão, dona, por fim, de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos, Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado, Nos paroxismos da hiperestesia, O Infinitésimo e o Indeterminado… Transponho ousadamente o átomo rude E, transmudado em rutilância fria, Encho o Espaço com a minha plenitude!

Matéria Cósmica Glória à matéria cósmica, a energia Potencial que dá vida aos elementos,
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Matéria Cósmica Glória à matéria cósmica, a energia Potencial que dá vida aos elementos, Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. É do mundo o Od ignoto, o éter divino, Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Livro onde o Criador Inimitável Grava, com o pensamento almo e insondável, Seus poemas de seres e universos.

A Subconsciência Há, sim, a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências
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A Subconsciência Há, sim, a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre, luta e goza. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências, Consciência de todas as consciências, Fora de toda a sensação nervosa. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas, Que o neurônio oblitera por momentos, Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas.

ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Noite alta. Ante o telúrico recorte,
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ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Noite alta. Ante o telúrico recorte, Na diuturna discórdia, a equórea coorte Atordoadoramente ribombava! Eu, ególatra céptico, cismava Em meu destino!... O vento estava forte E aquela matemática da Morte Com os seus números negros, me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu, No eterno horror das convulsões marítimas, Pareciam também corpos de vítimas Condenadas à Morte, assim como eu!