DESABAFO DE UM POETA
Que não me venham colocar nome de praça,
Que não me venham colocar nome de rua;
Por que somente quando morre é que tem graça?
É que reconhecem o poeta em terra sua?...
A realidade que é sentida ela é tão crua,
Um desprezo cotidiano que não passa;
Mas depois que o poeta morre se atenua,
Ganha logo um busto de bronze na argamassa!
Não merecia ele sentir essa emoção
Aquele que amou e que cantou o seu torrão,
Propagando toda a grandeza que ele encerra?...
Não deveria ser, em vida, valorizado?
Infelizmente quando morre é que é lembrado,
Que o poeta é reconhecido na sua terra!
AVANTE, POETA!
Jamais espere ser reconhecido
Um dia, poeta, em terra sua;
É mais fácil ser no céu e na lua
Que na planície onde haveis nascido!
Avante, poeta, ao desconhecido!
O mundo é grande pra que se construa
U'a vida honrada na qual se pontua
Valor literário, bem conhecido.
Levante a cabeça e olhe pra frente!
O mundo é tão vasto e tem tanta gente
Pra que se conquiste com paz e amor...
Prossiga sereno, sem olhar para trás,
Buscai novos sonhos que teus ideais
Serão confirmados por Noss’ Senhor!
O QUE PRECISA O BRASIL PRA TER REPEITO?
Que precisa o Brasil pra ter respeito,
Somente dos estádios “Padrão Fifa”?
Enquanto, em hospitais, o povo fica
Jogados pelo chão sem ter um leito?...
Que precisa o Brasil pra ter respeito,
Somente sediar uma olimpíada?
Mostrando para o mundo, pela mídia,
Que somos competentes e direitos?...
Enquanto a violência se avoluma
pelas ruas das cidades – uma a uma –
O que precisa o Brasil para ter jeito?...
Garantir pra cada pobre o pão, a ceia,
Colocar os corruptos na cadeia
E o eleitor não se vender em nenhum pleito.
SE AS PEDRAS FOSSEM FLORES
Mas já pensou se as pedras fossem flores?
Que alegria seria ser apedrejado!
Chamaríamos, por certo, de amores
Todos que pedras têm nos atirado!
Mas já pensou se as pedras fossem flores?
Como o caminho seria perfumado!
Lindo jardim, repleto de primores,
Com flores surgindo por todo lado!...
Que pena que as pedras flores não são!
E piores são as da ingratidão
Quando acertam, pelas costas, nosso ser!...
Ficamos, de tal forma, estarrecidos
Que tardamos nos dar por convencidos
E a ninguém desejamos convencer!...
A INGRATIDÃO DA HUMANIDADE
A ingratidão, meu Deus, esta pantera
Que habita o coração da humanidade,
Ignorando o amor e tua bondade,
Chamando-te até mesmo de quimera!
A ingratidão, meu Deus, no mundo impera.
Fazer o bem parece iniquidade!
O agradecimento é leviandade,
Sempre da parte de quem não se espera!...
É contumaz, meu Deus, homens ingratos,
Comer teu pão, depois cuspir nos pratos,
Ignorando o amor com que fizeste!...
E se lhes pede comida, um faminto,
Ignoram o pobre no recinto,
Negando repartir do que lhes deste!...
A FALSIDADE DESTE MUNDO
Neste mundo é tamanha a falsidade
Que a verdade, de repente, ocultou-se;
A mentira transformou-se em verdade
E a verdade, em mentira, transformou-se!
Porventura alguém sabe onde a verdade
Neste mundo hodierno extraviou-se?
Em que parte do planeta a bondade
Inda não, em maldade, adulterou-se?
Oh Senhor, nos livrai da falsidade!
Que opera neste mundo de maldade,
Da forma mais arguta e traiçoeira...
Pois no mundo a maldade não se espira:
A verdade transformou-se em mentira
E a mentira — em verdade verdadeira!
HIPOCRISIA
Há muita hipocrisia e tão pouco amor
No mundo em que vivemos. É a verdade.
Onde se prega o bem — vemos maldade;
Onde se prega a paz — vemos terror!
Há muito egocentrismo e não penhor
Pra dispensar, ao próximo, a bondade;
Cada qual busca a própria f’licidade,
Ignorando quem chora a sua dor!...
Na vida o que é que vemos aqui, ali?
— Deus por todos e cada qual por si!
Quem se importa com o irmão que sofre à esmo?...
A dor que dói será só a dor da gente?
Devemos crer em Cristo, inteiramente!
— Amar ao próximo como a nós mesmo.
Quem devasta a natureza
É um ser inconsequente,
Pois condena o seu futuro,
Aniquila o seu presente.
Pensando agir co’ esperteza
Mas o fim de sua vileza
É catástrofe iminente!
QUEM DEVASTA A NATUREZA
Não precisa pesquisar
Nos livros da realeza
Ou na NASA, com firmeza,
Para poder comprovar
Que quem age sem nobreza,
Destruindo a natureza,
Devasta mesmo é seu lar!
Quem devasta a natureza
É um ser inconsequente,
Pois condena o seu futuro,
Aniquila o seu presente.
Pensando agir co’ esperteza
Mas o fim de sua vileza
É catástrofe iminente!
Quem devasta a natureza
Não trata bem a sua casa,
Seu futuro é de incerteza,
O seu presente ele arrasa,
Pois quem destrói o seu ninho
Termina qual passarinho
Querendo voar sem asa!
ÁRVORE QUEIMADA
Que triste a árvore queimada,
Sem nenhum mal cometido!
Na lateral duma estrada...
Talvez por ter existido.
Planta que o homem condena
Sem fundamento ou razão,
Corta do mundo sem pena,
Em prol de sua ambição!
Deixando, em meio à fumaça,
Deixando apenas carvão,
O seu tronco: uma carcaça
Carbonizada no chão.
Seus frutos não têm quem faça
Alguém pegar com a mão;
São brasas no meio da praça,
São cinza na imensidão.
Quem dera seus atributos!...
Quanta sombra nos seus galhos!
Outrora cheia de frutos
Molhados pelo orvalho.
Árvore cheia de flores,
De ninhos de passarinhos;
Agora somente horrores,
Espantalho do caminho!
Não precisa pesquisar
Nos livros da realeza
Ou na NASA, com firmeza,
Para poder comprovar
Que quem age sem nobreza,
Destruindo a natureza,
Devasta mesmo é seu lar!
Quem devasta a natureza
Não trata bem a sua casa,
Seu futuro é de incerteza,
O seu presente ele arrasa,
Pois quem destrói o seu ninho
Termina qual passarinho
Querendo voar sem asa!
QUEM ESCUTA A VOZ DO RIO?
Quem escuta a voz do rio,
Quem escuta a sua voz?
Do rio que está clamando
Por socorro a todos nós!
Quem escuta a voz do rio
E dele se compadece?
Pois o rio está clamando
por socorro, pois perece!
Quem escuta a voz cansada
Das águas tão poluídas?
Quem escuta a voz do rio
Lutando para ter vida?...
Quem escuta a voz do rio
Nos clamando, em desespero,
Consumido pelas dragas,
A ganância do areeiro?...
Quem escuta a voz das águas?
Quem escuta a voz do leito?
Pois quem deixa a voz do rio
Adentrar para o seu peito?...
Atentai pro seu clamor,
Criança, jovem, adulto;
Não deixem o rio morrer,
A terra ficar de luto!
Será que só depois de cortarem a última árvore,
ou queimarem a última floresta,
matarem o último rio,
poluírem todos os mares,
é que vão perceber
que a natureza sempre dá o seu troco?
AQUELE RIO
Aquele rio de outrora
Que passava no Pilar,
Aquele rio caudaloso,
Que prosperava o lugar,
Trazendo vida, renovo,
Pro ribeirinho, pro povo...
Aquele rio... onde está?
Onde está aquele rio
De meu tempo de menino,
Diferente desse fio,
Neste solo nordestino,
De água pouca, a circular?...
Com máquinas no seu leito,
Arrancando de seu peito
Areias para exportar!
Oh, Paraíba do Norte!
Quem decretou tua morte
Neste solo brasileiro?
Rio preso, encarcerado,
Dia e noite saqueado
Por ganância de dinheiro.
Quando serás libertado
Do poder dos areeiros?!...
Ribeirinhos, defendei,
Trazei de volta ao Pilar,
Aquele rio de outrora
Que prosperava o lugar!
Aquele rio vigoroso,
Que seguia, majestoso,
Livremente para o mar!
O DONO DO RIO
O Dono do Rio
expulsou todo gado,
as lavadeiras de roupas,
os plantadores de batatas,
os jogadores de bola
e dominou todo rio.
Prendeu suas águas,
deixou só um fio.
O Dono do Rio
montou um areeiro
para vender areia
por muito dinheiro.
É caçamba saindo,
é caçamba chegando,
e o Dono do Rio
muito mais enricando!
O dono do Rio
construiu mansão,
comprou fazendas,
comprou muito gado,
mas o rio — coitado!
Só foi afundando,
a cada dia sumindo,
a cada dia minguando!
O Dono do Rio
com seus dragões mecânicos,
com sua ganância infinda,
quando menos esperar
ele vai descobrir
que a areia acabou,
que tudo findou,
que a natureza vingou.
O Dono do Rio
um dia verá
que nada é para sempre,
que não é dono de nada!
Que a justiça da terra
pode até ser comprada,
mas a justiça divina
ela vem e não falha!
CANÁRIO DA TERRA
De repente, no quintal, uma novidade:
Pousa um pássaro que tanta beleza encerra!
Um canário da terra, mas, que em nossa terra,
Já se encontra em extinção — é a realidade!
Pois a ganância, misturada co’a maldade,
Fez do homem um caçador que a vida emperra,
Pois com gaiolas, alçapões, fez uma guerra
Capturando o cântico da liberdade!...
Oh, passarinho que me faz uma surpresa!
Parecendo um solitário na natureza,
D’onde vens? de que árvore ou de que morro?...
Há um silêncio no teu bico, um desencanto...
Por que não cantas para mim teu belo canto,
Passarinho que parece pedir socorro?!
TINHA UM RIO NO MEIO DO VALE
(Parodiando Carlos Drummond de Andrade)
Tinha um rio no meio do vale
No meio do vale tinha um rio
Tinha um rio no meio do vale
No meio do vale tinha um rio
Tinha um rio...
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Nas cenas de minha infância passada
Que no meio do vale tinha um rio
Que tinha um rio no meio do vale
Tinha um rio...
Um rio de águas cristalinas
Um rio cheio de peixes...
Um rio que poluíram...
Um rio que assassinaram...
Tinha um rio no meio do vale
Que nunca me esquecerei.
ESSE RIO QUE EXISTE AGORA
Esse rio que existe agora
tão diferente na lida,
será o mesmo d'outrora,
da nossa infância querida?
Esse rio que existe agora
d'água suja, poluída,
será o mesmo d'outrora
ou é outro rio sem vida?
Esse rio que existe agora
sem ter mais força no ventre,
será o mesmo d'outrora
ou corre morto somente?
Esse rio que existe agora,
sem árvores em suas margens,
será o mesmo d'outrora
ou será uma miragem?
Esse rio que era tão limpo,
d'água pura, cristalina,
não sacia mais a sede
desta terra nordestina!
Esse rio que era tão cheio
de tilápia e de pial,
por que está assim deserto?
Nos responda o homem mal!...
O HOMEM NÃO É UM BICHO (?)
O homem não é um bicho,
mas se torna um bicho-homem;
quando ele polui o rio
das águas que ele consome!
O homem não é um bicho,
mas perde todo renome,
quando ele polui as águas
dos peixes que a gente come!
O homem não é um bicho,
mas esse nome faz jus;
quando ele joga no rio
o lixo que ele produz!
O homem não é um bicho,
mas se torna um bicho-homem;
quando agride a natureza,
não tem outro cognome!
AQUELE QUE CORTA UMA ÁRVORE
Aquele que corta uma árvore
corta, sim, uma esperança
de ter um mundo de paz,
de mais amor e bonança.
Aquele que corta uma árvore,
por maldade ou por ganância,
o troco receberá
pela sua ignorância.
Pois uma árvore, quem corta,
deixa escancarada a porta
pra cobrança da natureza!...
Tijolo, concreto, mármore,
não substitui uma árvore,
por mais conforto e beleza!
QUANTO VALE A VIDA DUM RIO?
Oh, meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Assisto aqui num programa
Que o Rio Doce declama
A sua dor, o seu drama...
Sua morte num mar de lama!
E antes que o rio se cale,
Pra sempre, no meio do vale,
Pra sempre, por causa da Vale,
Pergunto ao mundo inteiro:
Quanto vale um mar de lama?
Quanto vale a ganância humana
Neste solo brasileiro?...
E aqui pergunto de novo:
Quanto vale a vida dum rio?
Quanto vale a vida dum povo?
Responda-me quanto é que vale,
Oh Vale! Oh Vale! Oh Vale! Oh Vale?!...
CACIMBA D’ÁGUA DOCE
Oh cacimba d’água doce!
Quem foi que te conheceu?
Quem teve esse privilégio?
Quem de tua água bebeu?
Oh cacimba d’água doce!
D’água pura, cristalina,
Tu eras, com mor certeza,
Uma dádiva nordestina.
Oh cacimba d’água doce!
Sem sapo, rã ou caçote,
Carregada na cabeça,
Numa lata ou num pote.
Oh, cacimba d’água doce!
Quero beber de tua água,
Numa caneca cheiinha
Quero afogar minha mágoa.
Oh cacimba d’água doce!
Vem saciar minh’ vontade,
Quero sentir teu sabor,
Matar a minha saudade!
Oh cacimba d’água doce,
Da melhor água bebida!
Vem saciar esta sede
De minha infância querida.