Eu estou muito velha para esse negócio de ficar Tenho muita pele dos dias por viver E aprendi: ficar é um verbo frouxo, que não cabe no meu corpo [não cabe].
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Eu estou muito velha para esse negócio de ficar Tenho muita pele dos dias por viver E aprendi: ficar é um verbo frouxo, que não cabe no meu corpo [não cabe]. Quero alguém que não venha por carência — mas pela urgência do ser a dois. Alguém que se sente do meu lado com firmeza, como se ser parelha fosse natural, inevitável. Alguém que apresente minha pele–história à família, aos velhos amigos — como quem expõe um gesto de honra. Quero alguém que seja coautor da casa que habita meu sonho: cada cômodo planejado no calor do desejo compartilhado, cada canto respirando o nosso agora e o depois. Quero alguém que entenda que construir família é um verbo contínuo — não um projeto estático, mas o pulso insistente das certezas e dúvidas que se renovam e endurecem e curam juntos. Quero alguém que saiba que votos não são palavras soltas ao vento, mas carnavais de promessa, ternuras assumidas em público, como se cada “até que a morte nos separe” fosse gravada na carne do tempo. Estou velha demais, disse: velha para brinquedos de amor novo, para encontros sem peso, para corações improvisados. Quero alguém que queira morar dentro dos meus medos e descobertas, que saiba que ficar é escolher não fugir daquilo que assusta — mas abraçar o medo como se fosse casa. Eu já sou casa, sou árvore, sou vento e sou cinza. Quero alguém que me encontre inteira, com minhas ranhuras e minha fome de pertencer — pertencer a um “nós” mais vasto que o medo, mais vasto que a própria solidão.