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Frase de Douglas Milani Carrobrez

O Homem que Sobrou de Todos os Homens Antes de mim já havia o silêncio. Depois, alguém acendeu uma luz e chamou aquilo de nascimento. Não me perguntaram se eu queria estar aqui. Deram-me um corpo, um nome, um punhado de ossos e uma consciência inquieta demais para caber dentro deles. Passei a infância aprendendo o tamanho das coisas. O quintal parecia infinito. O céu não terminava. O tempo não tinha pressa. Eu ainda não sabia que um dia os relógios começariam a devorar pessoas. Nem que homens adultos acordariam cedo para vender seus dias em troca de dinheiro com o qual comprariam mais alguns dias. Eu ainda não sabia que crescer seria descobrir lentamente que quase tudo aquilo que chamávamos de escolha já vinha com preço. Então cresci. E o corpo cresceu comigo. Mas dentro dele continuava aquele menino batendo nas paredes de uma casa que não sabia ser sua. Foi quando comecei a desmontar o universo. Procurei Deus atrás das estrelas. Depois procurei estrelas dentro dos átomos. Procurei respostas na matéria, e encontrei vazio. Procurei vazio, e encontrei movimento. Procurei movimento, e encontrei caos. Procurei o caos, e encontrei a mim. Talvez tenha sido aí que tudo começou a dar errado. Porque descobrir a própria consciência é uma forma sofisticada de perder a inocência. Depois que percebemos que estamos vivos, não conseguimos mais fingir que não estamos. E eu pensei demais. Pensei até o pensamento ficar pesado. Pensei até transformar a própria cabeça em um quarto sem janela. Houve noites em que o silêncio tinha mais presença que qualquer pessoa. O mundo dormia. Eu não. Eu contava as rachaduras do teto como quem procura uma saída no mapa de uma prisão. Às vezes queria desaparecer. Não como quem deseja um fim, mas como quem deseja que alguém apague uma palavra escrita errada antes que a página inteira seja condenada por ela. Queria ser menos eu. Depois descobri que era impossível. Então tentei ser outra coisa. Fui raiva. Fui veneno. Fui punho. Fui grito. Fui a palavra que ninguém queria ouvir na mesa onde todos fingiam que estava tudo bem. Olhei para o mundo e achei que ele merecia ser destruído. Depois olhei melhor e percebi: eu também fazia parte dele. Essa foi uma descoberta pior. Porque é fácil odiar monstros quando acreditamos não possuir dentes. Mais difícil é perceber que às vezes o monstro mora no espelho e paga suas próprias contas. Ainda assim, lutei. Contra homens. Contra ideias. Contra sistemas. Contra deuses. Contra o destino. Contra mim. E por algum tempo confundi liberdade com não pertencer a nada. Que erro. A liberdade não é ausência de correntes. É saber quais delas você aceita carregar. Então veio o amor. E eu, que desconfiava de quase tudo, acreditei. Que ironia. Passei anos procurando uma prova de que a vida tinha sentido e bastou alguém olhar para mim como se eu tivesse. O amor não me salvou. Nenhum amor salva. Ele apenas mostrou que havia coisas pelas quais valia a pena continuar lutando. E isso foi suficiente. Depois vieram as perdas. Porque toda coisa que amamos carrega consigo a possibilidade de nos ferir. Aprendi tarde que algumas pessoas não ficam. Algumas são passagem. Algumas são cicatriz. Algumas são casa e algumas são incêndio. E algumas conseguem ser as duas coisas. Continuei andando. Não por coragem. Por insistência. Há uma diferença. Coragem olha para o abismo e decide saltar ou não. Insistência simplesmente acorda no dia seguinte. Eu acordei muitas vezes. Algumas sem vontade. Algumas sem esperança. Algumas sem saber o que fazer comigo. Mas acordei. E um dia percebi que havia outras pessoas acordando por minha causa. Foi então que o homem que queria desaparecer começou a compreender o peso de permanecer. Já não era apenas meu corpo. Já não era apenas minha vida. Havia mãos pequenas que ainda não entendiam a palavra futuro, mas já eram capazes de mudar o meu. Foi nesse instante que o tempo deixou de ser inimigo. Ele passou a ser herança. E compreendi algo que nenhuma equação havia conseguido me ensinar: nós não somos apenas aquilo que lembramos. Somos também aquilo que ensinamos sem perceber. Somos a frase que alguém repete anos depois. O gesto que alguém reproduz. A coragem que alguém encontra porque um dia viu a nossa. Somos aquilo que permanece quando o nome já não está na boca de ninguém. Talvez seja essa a única forma humana de eternidade. Não durar. Continuar. Hoje ainda tenho perguntas. Muitas. Algumas envelheceram comigo. Outras nasceram ontem. Ainda desconfio de Deus. Ainda desconfio dos homens. Ainda desconfio de mim. A diferença é que já não preciso resolver todos os mistérios para apreciar o fato de estar dentro deles. Já não preciso compreender o universo inteiro para amar alguém nesta pequena parte dele. Já não preciso vencer todas as batalhas para reconhecer que sobrevivi a algumas. E já não quero apagar nenhuma versão de mim. O menino. O revoltado. O apaixonado. O bêbado de pensamentos. O homem perdido. O homem arrogante. O homem quebrado. O homem que achou que não haveria amanhã. Todos eles continuam aqui. Não como fantasmas. Como fundação. Eu sou o erro que aprendeu com o erro. A ferida que aprendeu a fechar sem esquecer onde doeu. A pergunta que desistiu de exigir resposta. O caos que encontrou uma maneira de não destruir tudo. A matéria que, por algum acidente absurdo, aprendeu a amar. E talvez seja isso que mais me assuste: depois de passar tanto tempo querendo descobrir o que existe depois da vida, eu finalmente comecei a prestar atenção no que existe dentro dela. Um café quente. Uma madrugada. Uma discussão. Um abraço. Uma criança dormindo. Uma fotografia antiga. Um erro que ainda dói. Uma gargalhada inesperada. Uma pessoa dizendo “fica”. O sol entrando pela janela sem pedir licença. A vida. Essa coisa estranha que nunca explicou por que me escolheu. E que, ainda assim, eu escolhi de volta. Quando meu corpo finalmente cansar, quando a matéria voltar a ser matéria, quando meu nome for apenas uma palavra antiga em alguma boca distante, não quero que digam que fui um homem sem respostas. Eu fui pior. Fui um homem cheio delas. Tive respostas demais para perguntas erradas. Passei metade da vida tentando descobrir como escapar do labirinto. A outra metade aprendendo a construir janelas dentro dele. E se algum dia alguém encontrar minhas palavras, não procure nelas um homem pronto. Não existe. Procure um homem tentando. Porque foi isso que eu fiz. Tentei. Tentei entender. Tentei amar. Tentei odiar. Tentei fugir. Tentei ficar. Tentei ser pai. Tentei ser filho. Tentei ser homem antes mesmo de descobrir o que isso significava. Tentei transformar dor em alguma coisa que não fosse desperdício. Às vezes consegui. Às vezes não. Mas escrevi. E talvez escrever tenha sido a maneira mais honesta que encontrei de deixar sangue no papel sem precisar morrer por ele. Agora olho para trás. Há muitos homens espalhados pela estrada. Todos têm meu rosto. Nenhum é exatamente eu. Eu sou o intervalo entre eles. O espaço invisível onde um termina e outro começa. Sou o menino que ainda olha para o céu. O homem que ainda pergunta. O pai que já sabe que amanhã chegará. E o velho que ainda não conheço. Talvez um dia eu finalmente compreenda por que nasci. Talvez não. Mas já não tenho tanta pressa. Tenho coisas para fazer. Tenho pessoas para amar. Tenho erros para corrigir. Tenho histórias para contar. Tenho amanhã. E, pela primeira vez, isso não parece pouco. Parece infinito. Porque agora eu sei: não é preciso vencer a morte. Basta não deixar que ela seja a última coisa a dizer quem fomos. Então, quando chegar minha vez, que o universo faça comigo o que sempre fez com tudo: me desmonte. Quebre meus átomos. Espalhe minha matéria. Devolva meu corpo ao chão. Não me importo. Porque antes disso eu terei sido muitas coisas. E algumas delas terão ficado. Num filho. Num abraço. Numa lembrança. Numa cicatriz. Num riso. Numa página. E talvez, em algum lugar, um homem que nunca conhecerei leia estas palavras e perceba que não está sozinho. Então tudo terá valido a pena. Não porque eu descobri o sentido da vida. Mas porque, no fim, eu finalmente descobri que o sentido não estava esperando por mim em lugar algum. Eu estava construindo. Enquanto caía. Enquanto amava. Enquanto errava. Enquanto envelhecia. Enquanto escrevia. E entre todos os homens que eu fui, entre todos os homens que ainda posso ser, há somente um que permanece. Não o primeiro. Não o último. Mas aquele que escolheu continuar. Eu.

Douglas Milani Carrobrez

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