Frase de AertonL
A retórica contemporânea insiste em sustentar a existência de valores como empatia, colaboração e desenvolvimento humano no ambiente produtivo. Entretanto, tal proposição não resiste a uma análise minimamente rigorosa. Se esses princípios fossem operacionais — e não meramente discursivos —, seria esperado observar um comportamento sistêmico orientado à formação de indivíduos. Ou seja: investimento deliberado na construção de competências. O que se verifica, contudo, é o oposto. O sistema demanda experiência prévia como condição de entrada, ao mesmo tempo em que se exime da responsabilidade de produzi-la. A expressão recorrente — “contrata-se com experiência” — não é apenas um critério seletivo. É, na prática, a formalização de uma contradição estrutural. Do ponto de vista lógico, o problema pode ser descrito de forma simples: * Experiência é um produto de prática * Prática exige oportunidade * Oportunidade é negada na ausência de experiência Tem-se, portanto, um ciclo fechado e autoexcludente. Não se trata de falha acidental, mas de uma consequência previsível de um modelo orientado por eficiência imediata. Treinar implica custo: tempo, recurso e risco. Selecionar alguém “pronto” representa, no curto prazo, uma solução mais conveniente. Essa escolha, entretanto, ignora uma variável essencial: sustentabilidade do próprio sistema. Ao abdicar da formação, o sistema passa a depender exclusivamente de um estoque de profissionais já qualificados — estoque este que não é renovado na mesma proporção em que é consumido. O argumento frequentemente utilizado — o de que “não compensa treinar, pois o indivíduo pode sair” — revela uma tentativa de racionalização de um problema distinto. A evasão de talentos não invalida o investimento em formação; indica, antes, falhas nos mecanismos de retenção. Logo, a decisão de não ensinar não elimina o risco — apenas desloca o problema para o futuro. O resultado é um ciclo previsível: 1. Exige-se experiência 2. Reduz-se a formação 3. Diminui-se a entrada de novos qualificados 4. Aumenta-se a escassez 5. Intensifica-se a exigência inicial Esse sistema, ao longo do tempo, converge para a própria limitação. Síntese Não há escassez intrínseca de capacidade humana. Há, sim, restrição deliberada de acesso aos meios que permitem desenvolvê-la. Um sistema que condiciona a entrada àquilo que ele mesmo se recusa a fornecer não é apenas incoerente — é estruturalmente insustentável.
No pensador.ai desde