Frase de Maria Riber
Chamo de "falta de emoção" aquilo que ainda não sei nomear. É uma presença vazia, um sentimento sem forma, sem cor, sem raiz. Não sei de onde vem, tampouco o que quer me dizer. Só sei que se instala. Silenciosamente. E fico esperando que passe, como se a alma respirasse por impulso até que outro sentimento mais forte venha e ocupe seu lugar. No meio desse vácuo, me torno mais analítica. Começo a observar o mundo com olhos mais calmos, como se tudo ao redor pudesse me ensinar algo sobre mim. Foi assim que reparei em meu gato. E nele vi, não um animal de estimação, mas um reflexo. Demorei a tê-lo. Não por falta de vontade, mas por resistência alheia. Quando finalmente chegou, entendi de imediato por que sempre o desejei. Gatos são estranhos à espera. Amam a rotina. Buscam afeto, mas apenas quando o silêncio pesa demais. Percebi que éramos semelhantes. Sou alguém que demorou a entender o que é afeto. Guardo sentimentos em caixas seladas, como quem tenta proteger o mundo do que sente. Mas quando a caixa cai, o estrago é incêndio: tudo arde de uma vez só. Gatos, ao menos, não fingem. Eles sentem e demonstram. Se querem carinho, pedem. Se algo muda sem aviso, se retraem. Mas quando estão bem, vibram com uma intensidade que ninguém consegue conter. São fiéis à própria natureza. Talvez meu gato seja assim porque herdou a minha essência. Talvez ele apenas a reflita com mais pureza. Ele me ensina, com cada olhar e cada silêncio, a ser mais sincera com o que habita em mim. E é aí que reside a beleza: na humildade de aprender com o improvável. Na coragem de admitir que a vida nos ensina pelos cantos. E que crescer é, muitas vezes, parar de tentar entender tudo e apenas sentir. Afinal, somos eternos aprendizes. E o mundo, uma sala de aula infinita. Aprendemos nos gestos mínimos. E crescemos quando deixamos o orgulho ceder lugar à verdade. Esse é o caminho: ver com a alma, sentir com o espírito, e reconhecer, na simplicidade, a grandeza de viver.
No pensador.ai desde