Pular para o conteúdo

Frase de Maria Alice Guimarães

PASSAGENS SECRETAS Quantas vezes a gente jura de pés juntos que não vai mais cometer o mesmo erro. “Desta vez tenho certeza de que aprendi a lição”. Nunca mais vou cair nesta armadilha. Prefiro morrer. Se me virem andar em direção a este cara, por favor, me amarrem, chamem o resgate, me internem numa clínica de loucos, pois estou fora da casinha. Nem mais um segundo, terminou, não volto atrás de jeito nenhum. Ledo engano, mocinha, amor não se mata com este tipo de veneno, nem mesmo com o veneno que o outro inoculou nas suas veias sem dó nem piedade. O amor é como aqueles monstros extraterrestres de filmes americanos; só morre quando se acha o ponto vulnerável, o calcanhar de Aquiles do bichinho feio. E nem assim dá certo, fica sempre uma fresta, uma gota de sangue, um punhado de cinzas, sementes para que o seriado continue quando o etezinho ressurge mais malvado do que nunca. Depois que passa a sensação deixada pelo choque térmico vem a recaída. A bomba que você pensava ter desativado aparece bem ali, na sua frente mais ameaçadora do que nunca, prestes a mandar você para o espaço. Começa o filme novamente e você conhece o roteiro e o final. Sabe que vai terminar como sempre, mas a necessidade de adrenalina vence as suas resistências e você vai e corre todos os riscos outra vez . Quem sabe desta agora dá certo? Quem sabe ele mudou, amadureceu, fez um cursinho de boas maneiras? Sapo vira príncipe, não vira? Ta lá nas histórias infantis e se não fosse verdade a vovó não teria me contado. Vó não mente, mas você já sabe que está mentindo para si mesma, mesmo assim se abriga nos braços da esperança, esquece o juramento, as lágrimas roladas, dispensa os serviços do resgate e nem se lembra que existe hospício. Cai nos braços do patife e se consome na paixão, se esvai em orgasmos alucinantes, acredita nas promessas tantas vezes descumpridas e dorme e acorda cantando, sentindo aquele alívio gostoso, mágico, aproveitando a abundância de gentilezas que começam com um bom dia amor e você correndo para o espelho para a consulta que aprendeu com a madrasta da Cinderela “espelho, espelho meu existe alguém mais feliz que eu”? É o seu momento de trégua. A vida de muitas de nós tem disto. Relaxa e aproveita. Faça de conta que não conhece o fim da história, saboreie esse bonbom recheado de licor, sem culpas. A juíza das suas loucuras é você mesma. Não seja severa demais nem se cobre depoimentos, afinal se houver ferimentos quem vai soprar é você, senhora de sua própria tortura. Afinal seu esporte predileto sempre foi correr riscos. Vale tentar ganhar uma medalha nem que seja de bronze.

Maria Alice Guimarães

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Maria Alice Guimarães

Vó é tão especial, que mesmo sendo modernas, joviais e cibernéticas, não se importam nem um pouco em dividir o espaço em sua cômoda, abarrotada de frascos de perfumes e de batons vermelhos, com porta-retratos ostentando aquelas carinhas, que só ela sabe, são o maior e mais descar…
Continuar lendo

Vó é tão especial, que mesmo sendo modernas, joviais e cibernéticas, não se importam nem um pouco em dividir o espaço em sua cômoda, abarrotada de frascos de perfumes e de batons vermelhos, com porta-retratos ostentando aquelas carinhas, que só ela sabe, são o maior e mais descarado amor que uma mulher é capaz de sentir.

Para muito além do silêncio Meu amado morreu numa noite de agosto, como um passarinho abatido por um tiro certeiro. E nem foi por nada. Apenas para deixar de viver e pronto. Para que nunca fosse meu e eu nunca fosse dele ou para que fôssemos um do outro para sempre, sem que entr…
Continuar lendo

Para muito além do silêncio Meu amado morreu numa noite de agosto, como um passarinho abatido por um tiro certeiro. E nem foi por nada. Apenas para deixar de viver e pronto. Para que nunca fosse meu e eu nunca fosse dele ou para que fôssemos um do outro para sempre, sem que entre nós nunca houvesse desencantos nem mágoas, banalidades e desgastes. Não houve tempo para mais que a ternura do amor primeiro, a mágica doçura de uma lembrança que ficou guardada, escondida para sempre naquele lugar mais secreto onde se guardam as relíquias. Virou claridade, congelou no tempo da memória que não é o mesmo que o tempo da vida. Não é passado, nem presente, nem futuro. Parou naquele agosto de todos os silêncios, porque se calou para sempre, parou ali e caminha num espaço sem referências, num vai e vem, talvez andando em círculos, não sei. E, se não fala, porque ouço essa voz que me chama e me consola com sorrisos inesperados, vestindo uma camisa de seda azul? Por que teima em não me deixar e fala que me aguarda, pede que me apoie na esperança, diz que não me trai e que é fiel à promessa que fizemos. Meu amado morreu e eu não fiquei triste. Fiquei vazia. Tristeza faz sentido e um dia passa, dá lugar à saudade, vira lembranças e até pára de doer, tem como consolar porque as alegrias sempre vêm pra socorrer e a tristeza se esconde envergonhada. O vazio não, esse precisa ser preenchido, senão não há como viver. No vazio a gente se perde, se confunde num labirinto sem fim, como se fosse sensação de fome e sede. E eu comi e bebi de fontes envenenadas, só pra não me sentir assim, vazia. Só sei que fiquei aqui e que meu amado morreu, que tive de viver sem ter sido dele, sendo dele para sempre. Que o busquei em muitos, tudo em vão. Meu único abrigo é a certeza que em algum lugar meu amado me espera , que sairá do esconderijo secreto onde guardei minha dor, o choro que ninguém viu e o fogo que não me queimou, que só fez doer, onde nada faz muito sentido, de onde sai o grito que não encontra eco nem consolo, mas me segue vida adentro e me fere como um raio de sol enviesado. Meu amado morreu sem me dizer nada, apenas me pediu pra não morrer também. Maria Alice Guimarães COLCHA DE RETALHOS