Frase de Leonardo R. Pessoa
O Cético Cético que era, carregava nas mãos a secura da descrença, como quem segura um punhado de areia que o vento teima em dispersar. Cético que era, criou um deus afônico para preencher seus silêncios e atribuiu a ele todo o ruído. Cético que era, sabia que o que floresce na certeza é sempre pedra, e pedras, imóveis, não geram nada. Cético que era, afirmava que a certeza era um campo estéril, onde os dias passavam sem jamais brotar. Cético que era, dizia que as dúvidas tinham raízes, capazes de atravessar a pele das palavras e germinar árvores frutíferas. Cético que era, escreveu uma bíblia para ter no que acreditar, mas a descrença, astuta, plantou em seus bolsos sementes de inquietação. Cético que era, reconheceu que caminhava entre sombras, mas carregava possibilidades de luz. Cético que era, sabia que só o incerto conhece caminhos. Cético que era, encontrou na dúvida o verdadeiro sopro da criação: um gesto pequeno, capaz de iluminar e reflorestar o mundo. Cético que era, entendeu que o milagre mora no instante em que o incerto se torna possibilidade e o simples, eterno. Cético que era, nunca guardou gentilezas ou atos de bondade para o porvir; gastou tudo o que tinha de bom aqui.
No pensador.ai desde