“A Parte de Mim Que Ninguém Domou”. Há coisas que não aprendemos. Nascem conosco. Correm no sangue, misturam-se à água que bebemos, escondem-se em algum lugar profundo onde ninguém consegue chegar para nos dizer quem devemos ser. Tentaram me ensinar a caber. A diminuir meus sonhos, moderar meus excessos, domesticar minhas vontades. Disseram que amar também era ceder, que viver ao lado de alguém exigia abandonar algumas partes de nós pelo caminho. E talvez seja verdade. Mas ninguém deveria precisar desaparecer para permanecer. Durante muito tempo, encontrei abrigo onde acreditava estar protegido do mundo. Ali, entre certezas aparentemente indestrutíveis, pensei que pudesse descansar. Pensei que finalmente havia encontrado um lugar onde minha alma não precisaria pedir para existir. Eu tinha uma mente selvagem. E gostava dela assim. Gostava daquela parte de mim que ainda sabia se espantar, que atravessava madrugadas imaginando futuros impossíveis, que acreditava que algumas pessoas poderiam caminhar juntas sem transformar o amor numa gaiola. Mas o tempo tem uma maneira silenciosa de revelar aquilo que o coração insiste em esconder. Um dia, acordei na beira de alguma coisa. Você dormia tranquilamente. Eu, não. Você parecia ter todas as respostas. Eu carregava perguntas demais. Foi então que compreendi que duas pessoas podem dividir a mesma cama e estar vivendo em mundos completamente diferentes. Podemos esconder aquilo que não queremos que ninguém descubra. Podemos fechar as janelas para não ouvir o barulho da rua. Podemos recolher os pedaços quebrados, colocá-los dentro de uma taça bonita e brindar como se nada tivesse acontecido. E podemos chamar isso de amor. Se quisermos. Mas existe uma pergunta que nenhuma palavra consegue silenciar: quando foi que amar passou a significar deixar de ser quem éramos? Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nos doma. Talvez seja justamente aquele diante do qual podemos permanecer indomáveis e imperfeitos, intensos, inquietos, inteiros. Porque eu realmente acreditava em um amor sem fim. Acreditava que nós dois acreditávamos. E talvez seja essa a parte mais dolorosa de todas: não descobrir que o amor terminou, mas descobrir que, enquanto eu ainda acreditava no infinito, você já havia encontrado o fim.

silasoliveira13

Publicada em 19 de setembro de 2026

Fonte: Pensador.com

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