Frase de André Araújo
Um poeta, justo e sofrido, jaz ao lado; flores enfeitam o caixão. Sem pressa, o ar seca à sua volta. As flores, quase mortas, exalam o cheiro da tarde fúnebre. O choro se entrega ao vazio, misturado ao álcool consumido antes do velório — tédio, dor e ódio. Para os que ficam sentados, olhando aquela cena, não haverá mais poemas, não haverá mais questões. Chorosa, pensativa e discreta, a amante incerta recorda os momentos de amor. Não haverá mais beijos, nem paixão, nem ereção. Tenebroso, rancoroso e coeso, o cobrador ileso reflete sobre a dívida que não será paga. Não haverá pagamento, nem provento. Ao lado do caixão, calada, os olhos da mãe se desfazem em lágrimas. Seu pranto não é ouvido, mas sua dor apavora a solidão. A filha, aflita, não compreende; cede ao impulso de abraçar a carne morta. Sem consolo ou alívio, esta dor também a sufoca. Cala-se o poeta ao som da tampa que fecha a urna que será enterrada. Dentro dela, nada mais restará.
No pensador.ai desde