Pular para o conteúdo

Frase de Antonio Carlos Pinto

Para que lutar, se já não há alento que avive a chama exânime do peito, nem esperança que, por entre as ruínas, ouse novamente florescer? Tudo se foi. Assim como a derradeira claridade se desfaz no ocaso, quando o Sol, fatigado de iluminar os homens, recolhe seus derradeiros fulgores e entrega os céus à cólera da tormenta, também em mim se extinguiu a luz. E aquele astro, outrora tão fulgente, que entre miríades de estrelas resplandecia como um presságio divino, já não derrama sobre mim sequer um tênue vestígio de sua luz. Vejo-o ainda — perdido na vastidão celeste, além dos confins de meu alcance — mas tão distante, tão inexoravelmente distante, que nem mesmo o desejo poderia transpor a abóbada que nos separa. Não há mais alvorecer. Não haverá a brisa amena das manhãs em que a própria natureza parecia entoar cânticos de júbilo. Não haverá o orvalho sobre as flores, nem o perfume das matas despertando, nem o canto das aves anunciando o nascimento de um novo dia. Tudo se foi. E as folhas que outrora verdejavam sobre os ramos da existência agora se desprendem, uma a uma, ao sopro inclemente do outono. Caem. Silenciosas, pálidas, desprovidas de seiva, arrastadas pelo vento cruel que as conduz para um solo sem memória. Assim também definha o meu ser. Pouco a pouco, a derradeira clorofila de minha alma abandona aquilo que ainda resta de vida; e aquilo que outrora fora verde, viçoso e pleno de seiva, torna-se pálido, quebradiço e estéril. Já não sou árvore. Sou o que dela restou depois que o inverno passou. E busco, ainda, nas profundezas obscuras da terra, algum vestígio de minhas antigas raízes; um fragmento sequer daquilo que fui, uma memória adormecida sob o solo, uma centelha que me restitua ao princípio de minha existência. Mas nada encontro. Nem o néctar mais sublime destilado do seio da Mãe Natureza, nem a seiva primordial que alimenta os troncos milenares, nem o sopro fecundo que desperta as sementes sepultadas no ventre da terra seria capaz de devolver-me ao caule. Porque há um instante em que até as raízes esquecem a terra. E quando isso acontece, não existe primavera que possa restaurar aquilo que a própria existência condenou ao fim. Assim permaneço: ignoto entre os homens, estranho até para mim mesmo, sem aurora, sem primavera, sem raízes, condenado a contemplar de longe a luz que um dia me pertenceu. E talvez esta seja a mais cruel das mortes: não morrer quando a vida abandona o corpo, mas permanecer vivo quando já não existe em nós lugar algum onde a vida possa retornar.

Antonio Carlos Pinto

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)