Frase de Alessandro Teodoro
Por mais absurdo que possa parecer, a mídia também dá palco aos que não confirmam nossos vieses — sobretudo àqueles que a demonizam. Precisamos entender que ela se alimenta de ruídos. E talvez seja justamente aí que reside o desconforto mais profundo: na constatação de que o barulho não é um acidente, mas um combustível. Aquilo que nos irrita, que contraria nossas certezas ou que parece flagrantemente equivocado não apenas ocupa espaço — muitas vezes é alçado ao centro do palco. Não necessariamente por compromisso com a verdade, mas pela força gravitacional do conflito. Há, nesse jogo, uma espécie de pacto silencioso entre emissor e receptor. De um lado, a mídia que amplifica vozes dissonantes, polêmicas e até contraditórias. Do outro lado, nós, que reagimos — com indignação, aplauso ou desprezo — mas, ainda assim, conscientes ou não, reagimos. E cada reação, por mais crítica que seja, retroalimenta o ciclo. O ruído se transforma em relevância, e a relevância em permanência. Isso não significa, porém, que estejamos diante de uma conspiração unidirecional. É muito mais incômodo do que isso: trata-se de um ecossistema onde interesses comerciais, algoritmos e comportamentos humanos se entrelaçam. A mídia expõe, mas também responde. Ela não apenas molda o debate — ela o segue, o mede e o reproduz conforme sua capacidade de engajamento. O verdadeiro risco talvez não esteja em dar voz ao contraditório, mas em reduzir o contraditório a espetáculo. Quando ideias deixam de ser confrontadas com profundidade e passam a ser apenas exibidas como faíscas de atrito, perde-se o sentido do diálogo. O ruído substitui o argumento, e o impacto substitui a reflexão. Diante disso, a responsabilidade não pode ser terceirizada. Consumir informação exige muito mais do que concordar ou discordar — exige discernir. Nem todo palco é um endosso, mas toda audiência é uma escolha. E, no fim, talvez a pergunta mais honesta não seja por que a mídia amplifica o ruído, mas por que nós insistimos em escutá-lo como se fosse melódico.
No pensador.ai desde