Frase de IvoMattos
Um doce de vó Minha vó morava perto do campo de futebol. Era comum, depois das brincadeiras no campo — que ficava onde hoje existe o colégio —, passarmos pela casa dela. Certa vez, eu e um amigo encontramos uma velha bola de capotão. Estava furada, com o couro bastante desgastado, quase no fim da vida. Mas, para dois meninos, uma bola nunca estava velha demais. Demoramos um tempão para consertá-la e deixá-la em condições de voltar aos gramados. Ou, pelo menos, ao quintal da minha vó. A casa dela tinha um quintal bem grande, perfeito para nossas partidas. Marcamos o gol com as camisetas no chão e começamos nosso campeonato particular de “chute em gol”: cada um batia três vezes e depois trocávamos o batedor. A brincadeira ia muito bem. Até minha vó aparecer. Veio caminhando em direção ao nosso campinho com uma faca na mão. Antes que pudéssemos entender o que estava acontecendo, pegou a pobre bola e, sem a menor cerimônia, deu umas dez facadas nela. Dez! E, como se a bola fosse a única culpada pela desordem, ainda sobraram para mim alguns cloques na cabeça, dados com aqueles dedos duros de vó. Acabou-se a festa. A bola, que já tinha sobrevivido sabe-se lá a quantas peladas antes de chegar às nossas mãos, dessa vez parecia definitivamente morta. Mas não estava. Dias depois, encontrei o cadáver debaixo do assoalho da casa da minha vó. Resgatei aquele pobre pedaço de couro e fui atrás do meu amigo, o companheiro das cobranças de falta. Examinamos a situação e resolvemos ressuscitá-la. Só que, depois das facadas da minha vó, não havia remendo que desse jeito. Então tivemos uma ideia. Uma péssima ideia, naturalmente. Fizemos um enxerto e enchemos a bola com areia. Ela ficou pesada feito uma pedra. Foi aí que nasceu uma nova brincadeira. Colocávamos nossa “bola” num ponto estratégico da rua, onde costumavam aparecer outros meninos, e fingíamos estar batendo faltas. Bastava esperar. Logo surgia algum candidato querendo mostrar suas habilidades. — Deixa eu bater uma? Era tudo o que queríamos. O sujeito tomava distância, ajeitava o corpo, corria cheio de confiança e... PÁ! Chutava aquela bola cheia de areia. Nós caíamos na gargalhada. Os outros meninos que já conheciam a brincadeira também. E assim a velha bola de capotão, que não servia mais para jogar futebol, encontrou uma segunda profissão: castigar os pés dos desavisados. Até que, certo dia, apareceu um menino bem maior do que nós. Ele também quis mostrar suas habilidades. Tomou distância, correu e soltou o pé. Quase torceu o tornozelo. Dessa vez, ninguém teve muito tempo para rir. Furioso, ele distribuiu uns tapas nos menores — eu e meu amigo incluídos — e, para completar o castigo, levou embora nossa bola cheia de areia. Foi o fim definitivo daquele capotão. Pensando hoje, talvez tenha sido melhor assim. Primeiro minha vó tentou matar a bola com dez facadas. Nós a ressuscitamos, enchemos de areia e a transformamos numa armadilha. Depois apareceu alguém maior, acertou nossas contas e levou embora o corpo do delito. E minha vó? Minha vó nunca ficou sabendo da ressurreição. Ainda bem. Porque, conhecendo aqueles dedos duros, desconfio que os cloques da segunda vez teriam sido muito piores. Ivo Terra Mattos
No pensador.ai desde