Frase de José D'Assunção Barros
POR QUE SOU LADRÃO . . Por que sou ladrão? Esta pergunta me fez O fiscal da transgressão . Senhor, porque estudei... Como porque estudaste? Retruca-me o bom fiscal, Pedindo explicação. O que estudaste que justifica Que tu sejas um ladrão? . Respondi-lhe, a contragosto: Economia, História, Meteorologia, Religião... Apatetado, sem pouco crer, Volta-me o fiscal – Bom fiscal da transgressão: . Até a Religião? Principalmente A de todo o bom cristão... Afinal, não esteve junto a Cristo O bom ladrão? . A questão, meu bom fiscal, Não é se tu és ladrão Mas se és um bom ladrão . Deixemos então em paz A ciência da religião Em que a Economia te autoriza A ser um bom ladrão? . Vá lá, meu bom fiscal... Já ouviste falar Que a propriedade é um roubo? Quem o disse foi Proudhon Mas quem sentiu pela vez primeira: Foi operário, camponês, escravo Ou qualquer trabalhador Sob a clave da exploração. E ainda acrescento o dito de Lenin, Profeta da Revolução: O que é o roubo de um banco Diante da fundação? . Incorrigível Ladrão, Deixemos a Economia... Estudaste também a História? Em que te ajuda, na questão? . Ah, meu caro fiscal Estudei todos os temas Das guerras ao comércio, Da realeza à escravidão Da livre empresa À colonização. Seria possível chegar Partindo-se de um ponto da História A qualquer outra conclusão? . Para! Sinto que não há fim Se adentrarmos esta ciência. Também disseste algures, em teu relatório confuso, Que foi a Meteorologia Que te ensinou a ser ladrão? . Senhor bom fiscal, Estudei, como aprendiz, As propriedades do ar Cruciais para a respiração . Se fosse sólido Não passava pelo pulmão Se fosse líquido Derramava-se no chão Se tivesse cheiro Rescendia a poluição Se fosse visível (preto, talvez) Virava tudo escuridão O ar é desse jeito Porque, segundo creio, Assim o fez a Criação . O ar, no corpo, Diz algo Mas espalhado no mundo diz tudo Fala-nos de tempestades Explica-nos o tempo bom. Concentrado ou diluído Difunde-se enquanto gera Sua própria distribuição . Sim, mas e daí com isso? Disseste que as propriedades do ar – Ou compreendê-las – Fizeram de ti ladrão? . É que a certa altura, meu bom fiscal, Eu flexionei a questão. Pus-me a perguntar, a certo clarão, E a certa altura do diapasão, Não pelas propriedades do ar Mas pela propriedade do mesmo Dita no singular . Imagina um meliante Este sim, O verdadeiro ladrão (Não como estes, que apenas roubaram Um litro de leite, A passagem de um trem, Uma bala de açúcar, ou um pedaço de pão) . Nosso meliante inventa uma máquina Capaz de sugar todo ar E depois o começa a vender Todo o ar do planeta A dois reais a ração . E a partir daí tem cada vivente Ao comando de sua mão Subjugado e indefeso – Revertido à escravidão! Diante da propriedade do ar Não acharias justa e necessária Uma boa rebelião? . E se esta ainda não vem Não acharias mais justo Que lhe invadissem a mansão Para respirar da cruel máquina O ar roubado pelo mau ladrão? . Agora, meu bom fiscal, Troca o ar pela terra que pisamos, Pelo tempo de nossas vidas, Pela saúde arrancada Ao camponês, de antemão – Aquele que é explorado de sol a pique Condenado à velhice, ainda jovem, Se não morrer de insolação . Troca o ar pela própria vida Do soldado condenado à morte (Sua e de seus irmãos) Aquele soldado infeliz Que ao contrário do General Não espia a guerra do alto De um posto de observação Ali está ele, dormindo em pé, Condenado a desarmar minas Quando não é bucha de canhão . Ou, por fim, troca o ar Pelo teu trabalho digno Já que te fizeram aceitar (Para não ficar do outro lado) Ser um fiscal de transgressão . Para, chega!! Vai-te embora Sinto que, se ficas mais um pouco, Vais me roubar o coração! A propósito, por curiosidade, Qual foi mesmo o teu delito? Dize-me com precisão. . E antes de sair, Olharam-se o bom fiscal E, claro, Este que vos fala, um simples bom ladrão: . Roubei Um pedaço de chão [publicado em Transgressões, vol.9, nº1]
No pensador.ai desde